A balança do juiz e o coração da floresta

Diário de Xyntillan — Vigésima sexta sessão

Dia 25 de Revi

Há certas ironias que apenas um lugar como Xyntillan pode proporcionar a um homem. Ser intimado por um juiz morto há séculos para um julgamento em um tribunal de sombras é, no mínimo, uma experiência que testa a sanidade de qualquer guerreiro. Recebemos a intimação de Roberto Malévol, o Juiz, exigindo nossa presença para o julgamento de nosso querido Tadgh. Como comandante, eu não poderia permitir que um dos nossos enfrentasse a “justiça” daquela linhagem amaldiçoada sem o apoio de suas lâminas mais fiéis. Partimos em uma comitiva reduzida, mas poderosa: eu, Brakka, Gromel e o imponente Culam, marchando em direção ao que prometia ser um embate de leis distorcidas e aço bem temperado.

O custo da melodia e o peso do martelo

O caminho até o castelo transcorreu em uma tranquilidade enganosa, como se o próprio ar de Xyntillan estivesse prendendo o fôlego antes do espetáculo. No entanto, o castelo sempre cobra seu pedágio daqueles que são descuidados ou fascinados demais por suas maravilhas. Ao passarmos pelo salão de baile, o globo de espelhos que adorna o teto começou a girar, lançando feixes de luz que pareciam costurar o próprio tempo. Diversos integrantes de nossa comitiva foram instantaneamente enfeitiçados por aquela dança de reflexos, ficando mesmerizados e movendo os pés em um ritmo incontrolável e frenético. Foi uma visão melancólica ver soldados veteranos perdidos em um transe coreografado.

A agenda do julgamento, contudo, era um mestre cruel e não permitia atrasos. Com o coração pesado, tomei a decisão pragmática de deixar seis soldados para trás, entregues àquela valsa involuntária, pois cada minuto contava se queríamos salvar Tadgh de um destino pior que a morte. Seguimos em frente, o som das botas ecoando nos corredores vazios enquanto deixávamos para trás a música fantasmagórica que ainda ecoava em nossos ouvidos. Xyntillan tem essa forma de nos despir de nossa força aos poucos, testando nossa determinação em abandonar o que amamos para cumprir o que é necessário.

Ao chegarmos à torre, percebemos que Roberto Malévol não era homem de esperar por conveniências. Os procedimentos já haviam sido iniciados em uma atmosfera de opressão e poeira. A figura que nos encarava do alto da tribuna era ao mesmo tempo solene e aterrorizante: um fantasma barbudo, cujos olhos gélidos pareciam julgar não apenas nossas ações, mas nossas almas. Ele trajava pesadas vestes negras de magistrado que pareciam flutuar em uma brisa inexistente, e o que mais chamava a atenção era o broche de um pégaso dourado que ele ostentava orgulhosamente ao redor do pescoço, um símbolo de uma nobreza que a morte se recusava a apagar.

Tadgh, em um estado que partia o coração, tinha a representação de um advogado, o enigmático Vincent Godefroy-Malévol, que parecia tão deslocado quanto nós naquela paródia de tribunal. Brakka, com sua impaciência de anão, tentou argumentar e pedir mais prazo para a defesa, mas suas palavras foram recebidas com advertências severas do Juiz fantasmagórico. Em um gesto de autoridade mágica, Roberto tentou teleportar Brakka para a prisão, mas a resistência natural dos anões ao arcano provou ser um obstáculo que o juiz não previu; Brakka apenas piscou, um borrão no espaço, e retornou instantaneamente para o salão, encarando o magistrado com um desafio mudo nos olhos.

A dança da prata

Enquanto a tensão burocrática escalava, Culam decidiu que a força bruta seria um argumento mais convincente. Ele tentou se aproximar do juiz, mas foi prontamente barrado por duas armaduras animadas, os guardas silenciosos daquela corte profana. Em um ato de insensatez hercúlea, Culam tentou agarrar uma das armaduras para atirá-la contra o Juiz, mas descobriu da forma mais dura que aquelas peças de metal possuíam um peso sobrenatural. Roberto Malévol, cansado dos desacatos à sua autoridade, finalmente deu o veredito de sangue: ordenou que todos os vinte e um esqueletos presentes e suas armaduras animadas nos massacrassem ali mesmo.

Vimo-nos repentinamente em uma minoria alarmante, desprovidos de nossos soldados e da cobertura de Ilifir e Roos. Éramos apenas quatro contra uma legião de ossos e aço animado, mas havia uma estranha calma que se abateu sobre mim enquanto eu sacava minha espada bastarda de prata. Gromel, ao meu lado, empunhou seu mangual prateado com uma determinação divina que parecia iluminar o ambiente sombrio. Juntos, começamos a transformar os esqueletos em estilhaços e pó; minha lâmina trespassava dois mortos-vivos de cada vez em arcos precisos, enquanto Gromel movia-se com uma proteção que fazia os golpes inimigos parecerem meros raspões inofensivos em sua armadura.

Brakka, movido por uma fúria bárbara que parecia incendiar o ar ao seu redor, engalfinhou-se diretamente com o Juiz, empunhando agora a espada impressionante que pertencera ao falecido Conde Giscard Malévol. O duelo entre os dois era uma sinfonia de metal e ódio, mas a tenacidade do anão mostrava-se insuperável a cada golpe desferido contra as vestes negras do espectro. Enquanto isso, Culam demonstrava por que o sangue meio-orc é temido em qualquer campo de batalha. Ele lidava com as armaduras animadas com uma ferocidade bruta, lascando o metal e cortando as juntas das peças até reduzir uma delas a uma pilha de sucata retorcida e inútil no chão de pedra do tribunal.

Apesar de nossa perícia, a quantidade massiva de inimigos começou a cobrar seu preço; garras de esqueletos buscavam as frestas de minhas proteções, arrancando sangue e suor em uma luta de exaustão. Percebendo que precisávamos de equilíbrio, agi estrategicamente e, em uma manobra de esquiva, evitei os ataques frontais para alcançar a porta e convocar nossa infantaria pesada que aguardava do lado de fora. À medida que os soldados entravam no tribunal, o equilíbrio da rusga mudou drasticamente em favor da Companhia do Butim, transformando o que era uma execução em uma limpeza sistemática.

O cruzado e o cálice do destino

O fim de Roberto Malévol veio pelas mãos de Brakka, cujo golpe certeiro arrancou o último resquício de não-vida do magistrado barbudo. Em um momento de ironia final, Brakka subiu à tribuna e tentou alçar a autoridade do juiz, ordenando o encerramento da batalha, mas foi solenemente ignorado pelos esqueletos impensantes e pelas armaduras que agiam apenas por instinto residual. O trabalho foi sujo, duro e exaustivo, mas finalmente o tribunal silenciou. Com o campo limpo, recuperamos os bens de companheiros caídos em incursões passadas, como Mosuc e Tryni, garantindo que o equipamento daqueles que amamos não permanecesse nas mãos de nossos inimigos.

Após o combate, entramos em colóquio com Vincent Godefroy-Malévol, o advogado que assistira a tudo com uma impassividade jurídica. Perguntei se ele poderia nos indicar o paradeiro exato de Tadgh, agora que o juiz não era mais um obstáculo. Ele assentiu, mas não sem antes cobrar seus honorários usuais — um rábula é um rábula, mesmo nas entranhas de Xyntillan. Paguei-o prontamente, pois o ouro é um preço pequeno pela vida de um amigo. Antes de seguirmos, contudo, eu tinha uma promessa de honra a cumprir que pesava mais em meu espírito do que qualquer tesouro.

Invoquei Médard Malévol ainda no primeiro andar da torre e, diante do fantasma do velho cruzado, entreguei-lhe a espada bastarda que havíamos recuperado. Ver aquele espírito de joelhos, caindo em prantos ao sentir novamente o toque de sua lâmina, foi um dos momentos mais tocantes de minha jornada. Médard confessou que já havia perdido as esperanças de encontrar um aventureiro com honra suficiente para cumprir tal busca. Em gratidão, ele nos revelou a existência de uma relíquia sagrada, um artefato recuperado de suas peregrinações nas terras santificadas do oeste: o “Cálice do Destino do Bem e do Mal“.

Ele recitou um poema enigmático sobre o cálice, cujos versos gravei em minha memória como um mapa para o futuro. Falava de cetros de reis antigos, corações ansiosos pela caça e coroas perdidas em lugares onde as feras rastejam. As palavras sobre o óleo do capitão e o cetro merovíngio sentado em mármore frio ecoaram como um desafio. Médard, agora unido a nós por um laço de gratidão, decidiu nos acompanhar na busca por Tadgh, servindo como nosso guia espiritual através dos labirintos que ele um dia chamou de lar.

A imensidão de Indornesse e o regresso

Com Vincent e Médard à frente, avançamos pelos corredores. Mesmo com dois membros da família nos guiando, Xyntillan provou ser um quebra-cabeça mutável, e percebi que até eles se sentiam um pouco perdidos na geografia distorcida do castelo. No entanto, o destino nos levou para baixo, para as profundezas que se abrem na colina da floresta interna, um lugar que Vincent chamou de “Indornesse“. O que encontramos lá desafia qualquer descrição lógica: uma floresta imensa encravada nas entranhas da estrutura, completa com um céu próprio e uma luminosidade externa que banhava tudo em um eterno e melancólico outono.

Atravessar Indornesse foi uma jornada que nos tomou um dia inteiro, revelando a imponência absurda daquele local. Vincent nos explicou que a floresta é o domínio exclusivo de Runcius Malévol, o temido “homem negro da floresta”, e seu séquito de druidas malignos. Graças à companhia de nossos cicerones da família, não fomos incomodados por Runcius, mas a velocidade com que nos deslocamos para evitar encontros indesejados impediu que mapeássemos o trajeto com precisão. É um mundo dentro de um castelo, um ecossistema de folhas secas e sombras que parece não ter fim.

Finalmente encontramos Tadgh, mantido com mais alguns prisioneiros em condições precárias de fome e sede, mas milagrosamente vivo. Ver o alívio em seus olhos ao nos reconhecer valeu cada gota de suor derramada no tribunal. Alimentamos e hidratamos todos os libertados, preparando-os para a fuga. Nossos guias finalmente se orientaram e encontraram um caminho mais direto para a saída, que nos levou a subir por correntes pendentes no meio de um fosso profundo na Torre do Torturador — o local terrível conhecido como Oubliette.

Subir por aquelas correntes foi um esforço físico final que testou o que nos restava de força. Ao chegarmos ao topo, estávamos de volta ao salão do trono e às celas do térreo. Não esquecemos nossos homens; resgatamos os seis soldados que ainda estavam sob o efeito do salão de baile, agora estafados e acabados de tanto dançar involuntariamente. Eles mal conseguiam ficar de pé, mas nós os carregamos, iniciando um ritmo de retirada constante enquanto deixávamos a sombra de Xyntillan para trás.

Despedimo-nos de Médard e Vincent nos portões e retornamos para a Donzela do Butim sob um sol forte, uma visão quase estranha após tanto tempo nas trevas do castelo. O calor nos obrigou a consumir mais água do que o usual, mas chegamos sem novos incidentes. Sentado agora na taverna, olhando para Tadgh enquanto ele se recupera, sinto o peso da vitória. Cumprimos nossa missão. Resgatamos nosso companheiro das garras de Xyntillan e, no processo, devolvemos a honra a um fantasma e vislumbramos segredos que ainda estão por vir.

Assinado:

Wathgar, comandante das tropas da Companhia do Butim

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