Diário de Xyntillan — Décima Quinta sessão
A honra exige que cuidemos dos nossos. Lorran, nosso companheiro astuto, estava visivelmente debilitado após o toque necrótico daquele fantasma Malevól. Sua vitalidade fora drenada, deixando-o uma sombra pálida de si mesmo. Decidimos que ele buscaria cura em Chamrouse, e a mim coube a tarefa de escoltá-lo, levando comigo dez de nossos cavaleiros contratados.
Após dois dias de viagem árdua, a notícia no templo de Chamrouse foi desanimadora. O clérigo local, apesar de sua boa vontade, não possuía o poder para reverter a maldição de Lorran. Ele apenas nos assegurou que o simples repouso deveria, com o tempo, resolver a situação. Embora ainda aflito, Lorran pareceu um pouco menos tenso. Com a esperança de cura imediata frustrada, decidimos retornar para que ele pudesse convalescer na segurança da Donzela do Butim.
No caminho de volta, a floresta nos reservou um encontro que testou nossa compaixão. Encontramos uma ninfa, uma criatura de beleza feérica, caída e sofrendo. Uma ferida horrível manchava seu peito. Ela pediu ajuda, não com súplicas, mas com a dignidade de quem espera auxílio. Oferecemos a ela 100 moedas de ouro como doação para seus recursos, e ela, em troca, nos entregou um mapa, indicando um local onde poderíamos encontrá-la caso fosse necessário.
Deixei Lorran se instalando na Donzela do Butim, desejando-lhe uma rápida recuperação. A missão, contudo, não podia esperar.
O Retorno a Xyntillan e a maça perdida
Retornei a Tours en Savoy e reuni o núcleo da Companhia: Mosuc, Brag, Tadhg, a recém-retornada Thal’Shaar, Azimandor e um novo companheiro, Bertoldo de Phell. O plano era claro: retornar a Xyntillan, continuar o mapeamento do andar térreo e, para mim, uma questão de honra pessoal — recuperar a maça de prata de Tadhg, que eu vergonhosamente derrubei no último combate.
Passamos pela Donzela, onde todos desejaram melhoras a Lorran, e seguimos viagem. No trajeto, encontramos três goblins. Tadhg e Mosuc, em um raro momento de generosidade coordenada, deram-lhes rações. Tadhg pediu que “lembrassem da Companhia do Butim”. Os goblins, em sua simplicidade, cantaram: “Companhia do Butim, deram comida pra mim!”. Mosuc, incapaz de resistir, completou a rima com sua acidez habitual: “Goblin não é bom de rima, vou comer a tua prima”.
Chegamos ao castelo e fomos direto ao salão do confronto anterior. Para nosso alívio, não havia sinal dos fantasmas. A maça de Tadhg estava no chão, exatamente onde eu a deixara cair. Com a honra restaurada, Mosuc voltou à sua sanha exploratória.
Lembramos Mosuc da porta com a inscrição “Contém tesouro tipo 6”. Como um louco, ele a abriu. E então, o impossível aconteceu: Mosuc, o elfo que se joga de cabeça em armadilhas, começou a andar devagarinho, investigando o chão, antes mesmo que Azimandor pudesse detectar magia.
Ele abriu o baú. Vazio. Moveu-o, chutou-o, reclamou. Azimandor, que alegava estar sóbrio pela primeira vez, não detectou nada mágico.
“Posso abrir a porta que vai pro sul?”, perguntou Mosuc. Brag, sempre ranzinza, retrucou: “Agora o assassino quer permissão, é?” “Às vezes eu escuto o que vem de baixo”, respondeu o elfo, antes de pedir que eu organizasse uma parede de escudos e, como sempre, meter a mão na porta.
A sala seguinte continha uma “receita para crescer plantas”, um tubo de Superbonder, uma medalha de prata (que Mosuc mordeu e avaliou em 30 moedas), um rolo de corda e tabaco. “Oh, já temos lucro”, disse ele, seus olhos vermelhos já fixos na próxima porta.
Passamos por uma sala com um corcunda de lábia afiada, cercado de esqueletos, numa salão que aparentava uma caserna ou refeitório. Os esqueletos cantavam músicas de guerra, como outros que encontramos semanas atrás.
O corcunda tinha uma conversa franca e suave e conseguiu vender um frasco de ácido para Azimandor por 300 peças. Mosuc ponderou assassiná-lo para recuperar o ouro, mas desistiu e subiu por uma escada espiral, encontrando o acesso para o segundo piso num pequeno cubículo ao norte do salão dos esqueletos.
A partir dali percebemos que o caminho retornava para o portão secundário das seteiras, completando parcialmente nosso mapa do térreo do castelo.
O caramujo divino e a fúria de Brag
Chegamos a uma sala adornada com afrescos de monges de preto colhendo uvas. No centro, atrás de uma espécie de altar dantesco, uma casca fossilizada de um caramujo gigante. Assim que entramos, diversos monges mortos-vivos se ergueram e começaram uma reza sinistra. Mosuc, pragmaticamente, apenas os inspecionou em busca de algo de valor. Os monges não reagiram à nossa presença, portanto, apenas atravessamos a capela e seguimos pela porta a sudeste.
Atravessando a porta, num cômodo que aparentava ser mais aposento do que uma sacristia ou algo do tipo, pois encontramos o corpo de um sacerdote gordo, decomposto e fedorento sobre uma cama. Na parede, um quadro retratava o próprio monge em uma cena épica diante da concha fossilizada. Vendo valor artístico na tela e lembrando da convalescença de Lorran, recolhi o quadro como butim.
Atrás da pintura, uma passagem secreta revelou um corredor que margeava a capela, seguindo, aparentemente, a parede externa do castelo, numa arquitetura reconhecível. Mosuc encontrou cinco garrafas de vinho Malevól Gran Reserve, aparentemente muito valiosas. Ao fim do corredor, encontrei um buraco que levava ao andar de baixo. Atirei uma tocha: masmorras. Mais corredores escuros corriam abaixo de nós, provavelmente pelo nível inferior do castelo.
Voltamos à capela. Os monges zumbis continuavam rezando para o caramujo. Thal’Shaar parecia entediada, e Azimandor estava quieto demais (provavelmente bebendo escondido).
Foi então que o mago, talvez em sua suposta sobriedade, resolveu estudar e tocar no caramujo.
Sua percepção expandiu-se incomensuravelmente. A consciência de Azimandor foi projetada para o infinito. Ele viu a realidade da perspectiva de um DEUS, compreendeu a vastidão do cosmos, a insignificância de nosso mundo e que a civilização não é nada diante de tudo. A filosofia, a metafísica e a magia se tornaram conceitos triviais e ele se tornou UM com o caramujo… ou pelo menos é isso que eu acredito ter acontecido.
Na realidade, ao tocar no caramujo Azimandor caiu no chão, rindo histericamente, babando e gritando que nada mais importava. Tadhg tentou usar suas curas divinas, mas nada surtiu efeito.
Brag, acreditando que a destruição do fóssil poderia salvar o mago, decidiu agir. Pediu que eu lhe desse um “pézinho”. Ajoelhei-me, oferecendo apoio. O anão golpeou o caramujo com seu machado, mas, meio sem jeito, não conseguiu danificar a pedra.
Contudo, o ato despertou os monges de sua adoração.
Com garras sujas e afiadas, eles nos atacaram em fúria animalesca. Organizei a parede de escudos, mas Brag, de constituição frágil, foi derrubado antes que pudéssemos protegê-lo. A batalha irrompeu. Tadhg, com a luz de Bellenus, conseguiu repulsar metade dos mortos-vivos. Nossos soldados golpeavam com maças e espadas. Um dos monges, no entanto, atingiu Gunther, um de nossos homens, matando-o. A fúria tomou conta de mim. Armado agora com minha bastarda banhada em prata, um algoz para mortos-vivos, destrocei um dos monges com um único golpe.

Mosuc e Bertoldo derrubaram outros dois. Brag, curado por Tadhg no meio do combate, levantou-se como se nada tivesse acontecido e golpeou outra das criaturas. Os que fugiam da luz divina de Tadhg foram abatidos por nossos soldados e pelas flechas de Bertoldo.
Após a batalha, com Azimandor ainda débil no chão e um de meus homens mortos, minha paciência se esgotou. Frustrado, ergui minha espada e destruí o fóssil amaldiçoado do caramujo.
A Cruz Negra e o Fim da Incursão
Abrimos uma porta ao norte do quarto do monge gordo. Uma sala pequena dava para outra, onde uma cruz de prata invertida estava exposta. Decidi pegá-la. Ao tocá-la, senti uma fraqueza terrível me invadir. A cruz ficou negra como carvão em minha mão, mas a sensação passou rapidamente.
No quarto do monge, encontrei livros inúteis debaixo da cama. Explorando mais, encontramos um acesso ao norte da capela que nos levou a corredores familiares, desembocando na entrada principal, onde James, o mordomo fantasma, permanecia. Tadhg, em um gesto de cortesia, deixou cervejas para Ambrósio aos cuidados de James, que respondeu com um seco: “Obrigado, eu acho”.
James também revela a Tadgh que o monge gordo foi trazido por algum Malevól religioso, mas não conseguimos mais informações sobre isto. Provavelmente tenha sido um ato de Aristides Malevól, o patrício e senhor do castelo.
Considerando o avançar da hora e o estado debilitado de Azimandor, decidimos retornar. A chuva caía lá fora, mas chegamos à Donzela do Butim sem mais percalços. Mais uma incursão terminada, com um mago louco, um soldado morto e um butim modesto.






















