O Toco, a varinha e o uivo da floresta

Diário de Xyntillan — Décima terceira sessão

Foi o clérigo Tadhg, que compadecido com o estado de indigência daquele homem, recrutou Gibbs para a Companhia do Butim. Viu nele algum potencial que apenas um homem de fé poderia ver.

Gibbs era conhecido e maldito na região como “Toco”, pelo fato notório de não ter as duas pernas e se arrastar pela periferia da cidade como uma cobra impulsionada por braços finos. 

Não se sabe ao certo como Gibbs se tornou Toco. A boataria foi de que ele teria sido vítima de um assalto na floresta. Aqui é o ponto em que o boato se divide em dois, um mais convicto que o outro: parte afirma que Toco teve as duas pernas, abaixo da linha dos joelhos, amputadas por um único golpe de machado de um humanóide com feições e porte de urso. Outros  afirmam que Gibbs foi capturado e amarrado de ponta cabeça. Teria, então, cortado as próprias pernas para escapar, o que não parece fazer sentido. 

Quando perguntado sobre o real motivo que forçou sua baixa estatura, Toco costuma se limitar a responder com uma meia dúzia de palavrões e um “cuide dos seus próprios negócios”.

Mas Tadhg, em suas peregrinações locais, em busca de auxiliar os enfermos, convenceu Toco a encontrar a Companhia do Butim, afirmando que suas habilidades de sobreviver e encontrar rastros seriam muito bem vindas. 

Assim sendo, como combinado, no dia 22 do mês Doize, Toco se encontrou com os dois elfos negros do grupo: Mozuc, o carrasco e ceifador de dedos; e Tal’Shaar, a ilusionista sem paciência com os povos inferiores. Em seguida juntaram-se a Azimandor, o velho mago; Wathgar, o guerreiro humano; Brag, o anão com a saúde de um mosquito; e Lorran, um pequenino, quase do seu tamanho. 

A varinha perdida e a moral questionável

A Companhia do Butim estava em um impasse sobre a compra de carroças, cavalos ou pôneis. Demoraram tanto que pareciam mulas empacadas. Mas optaram por cavalos e deram o tom da missão que Toco deveria facilitar. 

Foi dito a Lorran, o hobbit administrador da Donzela do Butim, famoso por sua habilidade de nunca ser encontrado desprevenido, tampouco ferido em combates, que a varinha mágica que Azimandor perdeu durante a bebedeira teria sido ofertada a Ben Mordehai, um comerciante de Tours En Savoy, por um conhecido ladrão daquelas bandas. 

Mordehai, identificando o item como de um dos membros do Butim, negou a aquisição e o ladrão teria, então, rumado para a cidade mais próxima com o espírito de terminar sua transição e sentir os bolsos mais pesados. 

Amarrado pela cintura na sela de um cavalo, Toco seguiu a pista do comerciante e encontrou os rastros do ladrão, até uma curva na floresta em que ele avistou o provável meliante. 

A ideia de Mosuc era arrancar-lhe os dedos com seu machado para ensinar uma lição: “ninguém rouba a Companhia do Butim”. Lorran protestava aos cochichos dizendo que “a Companhia vive do Butim, que é um nome pomposo para pilhagens, que, por conseguinte, seria outro nome pomposo para roubo”. 

Brag já afiava seu machado e Wathgar só observava, bastante quieto, enquanto Tal’Shaar sugeria uma abordagem que cercasse o sujeito, de forma ameaçadora como elfos negros parecem se sentir confortáveis em fazer. 

Assim que nos aproximamos e fomos vistos, o ladrão já tentou uma conversinha fiada sobre como estava o estômago de Azimandor e que ele teria perdido a varinha em uma aposta. Lorran reforçou seu ponto sobre a moral questionável de Mosuc e passou a falar uma língua cheia de gírias. 

Enquanto isso Mosuc apontou seu arco, adornado e composto por ossos e madeira escura, e vociferou: “entregue a varinha ou verá a minha ira”. 

Toco fez o mesmo, imitando um padrão, e ameaçando “devolva isso ou cairá pela flecha de um Toco!”.

A Companhia sabia que quando Lorran falava estranho, como um trombadinha, misturando expressões de orcs, homens e anões, ele estava se comunicando com alguém íntimo ao seu universo. Todos sabiam disso, menos Mosuc e Toco, que havia comprado a lógica do elfo negro, pois, afinal, sem as pernas, ele não teria chegado vivo aos 34 anos (aparentando quase 60) sem uma certa maleabilidade moral que lhe permitisse alianças úteis. Portanto, ignoraram os protestos desesperados de Lorran.

Magicamente Lorran se entendeu bem com sua língua afiada e, no momento em que o homem, acuado, ainda em seu cavalo, entregava a varinha para Lorran, vislumbrou uma flecha passar bem longe de si, mas na sua direção e viu os olhos arregalados e a face bisonha de Toco com seu arco recém disparado. Neste momento sentiu uma pressão no ombro, uma ardência e uma sensação de aquecimento lhe cobrindo o braço. Era sangue e a flecha de Mosuc. 

Em um ato coordenado o cavaleiro balançou a varinha mágica e ela irradiou um clarão que fez a todos espremerem os olhos, enquanto um intenso raio, como aqueles que sobem aos céus, foi disparado na direção de Lorran, que nem precisou de muito esforço para ignorar sua trajetória. Em um pinote, cavaleiro e cavalo se puseram em fuga e Mosuc não perdoou. Mais um disparo e mais uma de suas flechas encontraram o cavaleiro. Mas, como o desespero era maior, o ferimento não o fez tombar. 

O dilema e a despedida de Thal’Shaar

Toco, toscamente amarrado por cordas e arreios improvisados em um cavalo recém comprado partiu em perseguição, na medida que Azimandor, que até então só olhava para toda a situação constrangido e segurava a vontade safada de gargalhar pelas lembranças da bebedeira que agora lhe voltavam, em fragmentos, à mente arcana e doentia, resolveu acompanhar a perseguição. Com um gesto e duas palavras que projetavam seu hálito etílico, fez o cavaleiro cair em um sono profundo em cima do cavalo, que foi logo capturado por toco. 

Os dois, então, retornaram ao grupo e Toco derrubou o cavaleiro no gramado da floresta: “pronto, trouxe ele de volta e pode arrancar os dedos, Mosuc”. 

A gargalhada de Mosuc não foi muito bem compreendida por Toco, que estava cada vez mais confuso. Iniciou-se, então, uma discussão sobre o que fazer com aquele ladrão. Falando nisso, de pronto Lorran agarrou a varinha e a guardou em sua mochila, como se ninguém fosse dar falta. E parece que ninguém, no meio da confusão, prestou muita atenção nisso, pois Toco se desamarrou, saltou rolando do seu cavalo e já se arrastava com seu machadinho avisando que iria cortar a garganta do ladrão para evitar futuros inimigos. 

O grupo olhou atônito para aquele ato vil e até Mosuc, o maligno mais bondoso dos elfos negros, protestou e o mandou parar, argumentando que ele valeria mais vivo e espalhando que a Companhia do Butim não admitiri ser roubada. Lorran lembrou, novamente que não houve roubo, mas uma aposta de um velho bêbado e safado, mas ninguém deu ouvidos e Azimandor só gargalhava e entornava um cantil cheio de vinho branco que ele carregava e bebia de milha em milha como se fosse água. 

A Companhia, então, se despediu de Thal’Shaar, que tinha assuntos urgentes a tratar por aí e seguiu para a Donzela do Butim.

A caçada aos lobos e a forja de Brag

Chegando lá, Wathgar organizou uma unidade impressionante de guerreiros que marchavam sob seu comando, formando paredes de escudos, como uma muralha de homens com armas. O jovem clérigo de São Bonifácio, chamado Roos, e o elfo arqueiro Ilifir, também se juntaram ao grupo, que partiu para expulsar uma alcateia de lobos ferozes que atacava os viajantes na região, prejudicando os rendimentos daqueles que vinham se divertir na Donzela do Butim, que agora, segundo Mosuc, contava com vários “servicinhos adicionais” que andavam curiosamente ocupando seus quartos com bastante frequência. 

Durante a viagem, Lorran emparelhou seu pônei com o cavalo de Ilifir e lhe perguntou: “tudo bem pra você se nós fizermos picadinho dos lobos?”. Ilifir olhou para Lorran, debochado, e respondeu: “mas você acha que eu sou o que? Uma fada?”. 

Mosuc gargalhou alto, Toco ficou tentando entender a pergunta. Azimandor entornou mais um gole de vinho e deu um soluço disfarçado, secando a boca em seu robe azul. 

Brag balançou a cabeça e sacudiu seu elmo, pois para o anão tudo era tão simples quanto apenas ignorar uma doença, que assim ela não o encheria o saco. Tudo o que Brag queria era criar a Forja de Brag, Barbagrossa. 

Então avistamos os lobos. Toco pensou em sugerir armadilhas com seus estrepes, buracos no chão, estacas de madeira coberta por carniça de cervos e etc. Artimanhas para atrair os lobos. Perguntou sobre os soníferos que Mosuc teria, mas estava esgotado o estoque.

Wathgar já organizava uma parede de escudos, linhas de arqueiros nos flancos e tudo isso parecia indicar que a Companhia do Butim possuía seu modus operandi variável de acordo com cada situação. E Azimandor bebia e sorria para quem fizesse contato visual com ele.

Toco, Lorran, Ilifir e Mosuc em cima dos seus cavalos e pôneis.

Então os lobos farejaram o perigo. Toco ficou realmente receoso de cair com o cavalo e virar jantar de feras, novamente…

Então Wathgar deu um comando e voaram duas saraivadas de flechas, abrindo o ato do combate. Os lobos investiram em carga contra a parede de escudos, que os espetava com lanças e os rasgava com espadas e machados. Mas as feras também mordiam e dilaceravam canelas e mãos em combate. Quando um soldado caía, era seu fim. E isso se sucedeu com alguns bons soldados contratados da Companhia. 

Então os lobos, que eram muitos, furaram a parede de escudos e avançaram contra os cavaleiros, avançando contra patas e os ventres desprotegidos dos animais. Azimandor gesticulou alguma magia, Mosuc disparava flechas e mais flechas, junto de Toco e Ilifir. Lorran só pensava em como se esconder no lombo de um equino.

Vários lobos e soldados caíram, as feras bateram em retirada e a Companhia passou a contabilizar seus feridos e recolher seus pertences. Roos curou os ferimentos de Mosuc e retornaram à Donzela com a moral elevada pela vitória, mas com o coração pesado pelos companheiros perdidos. 

No caminho Brag negociava com Lorran um espaço para construir sua forja e Toco achou que, sentado em um banquinho de ferreiro, teria alguma utilidade e estenderia sua existência por mais tempo do que lutando contra lobos com figuras sinistras como Mosuc e seu machado de carrasco.

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