Diário de Xyntillan — Décima primeira sessão
O sol mal havia se espreguiçado sobre Tours-en-Savoy quando a Companhia do Butim se dividiu, cada grupo com sua própria missão. Enquanto Lorran, Tadhg e Mosuc se embrenhavam na fumaça e no burburinho da taverna Black Comedian, eu e o velho anão Brag rumávamos para a The Tap. Minha tarefa era simples, porém crucial: reforçar nossas fileiras. Com mais de trinta almas agora sob nossa bandeira, a Companhia já não era um bando, mas uma brigada, e cada novo soldado de infantaria pesada que encontramos na taverna era um braço a mais para nossos escudos, uma lança a mais para nossa causa.
Reencontrei meus companheiros no Black Comedian. Seus olhos brilhavam com uma mistura de surpresa e ouro. Haviam encontrado Claude Malevól, um homem cuja cabeça trazia uma recompensa, uma promessa que nos deparamos mais de mês antes. A tentação do ouro era um brilho sedutor, mas a honra de Bellenus, através de Tadhg, logo dissipou a miragem. Claude, para surpresa de todos, revelou-se um homem de integridade, sua alma resplandecendo lealdade sob o olhar miraculoso do clérigo. Não se podia caçar um homem assim, caçado talvez por parentes cujos corações eram tão podres quanto o castelo que habitavam.
Em troca de nossa discrição — pois a recompensa ainda pairava sobre sua cabeça — Claude ofereceu algo mais valioso que moedas: a verdade sobre sua família. Ele nos alertou sobre seu irmão gêmeo, Olivier, um homem de coração sombrio, e sobre o patriarca, Aristides, o Patrício, um perigo a ser evitado. Confirmou que o Jardim das Rosas, de onde Mosuc já havia colhido seus estranhos espécimes, era o domínio de uma “Besta”, um horror a ser evitado a todo custo. E, o mais útil, nos falou de Jérôme, o Meticuloso, o ladrão que fugiu da Companhia, no dia da morte de Watford e de tantos outros soldados em nossa última incursão. Jérôme, segundo Claude, era um verme que visitava o castelo ocasionalmente para pilhar seus próprios parentes mortos. O próprio Claude, em um ato de confiança, nos presenteou com a localização de dois tesouros: uma vasta riqueza na sala do trono e uma coroa de valor inestimável escondida na floresta interior do castelo. Um bom dia de diplomacia, com um homem decente em meio a uma família de monstros.
O acerto de contas na estrada
O retorno à Donzela do Butim transcorreu em uma calma enganosa. Após uma noite breve de descanso, partimos novamente, o destino final: Xyntillan. Mas o caminho, que outrora nos trouxera vergonha, agora nos ofereceria uma chance de redenção. Eram vinte deles, os bugbears, provavelmente o restante da horda que havia massacrado o assentamento nascente semanas antes. Aquele dia, havíamos recuado. Hoje, o sangue dos inocentes clamava por vingança.
O embate foi um inferno de aço e fúria. Ordenei a formação, e nossa parede de escudos se ergueu, uma muralha inabalável de carne e metal. Eu e Brag na vanguarda, sentindo cada golpe que tentava nos romper. Os bugbears eram feras brutas, e suas maças e garras abriram feridas profundas em nossas linhas. Muitos de nossos soldados caíram, seus gritos se misturando ao rugido dos monstros. Mas nós seguramos. Eles tentaram flanquear, um movimento previsível para essas bestas. Mas nossas reservas, nossa infantaria ágil e nossos ginetes, que se moviam como sombras, já esperavam. O flanco virou armadilha, e os bugbears foram pegos em seu próprio jogo. Foi uma carnificina. Mosuc e Brag, com seus machados, eram uma força da natureza, derrubando monstros com uma eficiência selvagem. Lorran, com sua astúcia habitual, aparecia e desaparecia nas sombras, apunhalando as costas dos inimigos. Tadhg e seu fiel seguidor, o clérigo Roos, eram os anjos da guarda, suas preces e bálsamos mantendo os feridos à beira da morte longe do abraço gélido. Eu comandei, lutei, e a parede de escudos se manteve firme. Vencemos. Cada um dos vinte bugbears caiu. A vingança dos aldeões trucidados estava completa.
O olho carmesim e os guardas do abismo
Seguimos viagem, o sol já se punha, mas o céu não exibia o roxo sereno do entardecer. No alto, um tom carmesim, como se o próprio firmamento estivesse sangrando, tomou conta da abóbada celeste. E então, o vimos. Pairando sobre o estuário formado pelo riacho que contorna Xyntillan, uma visão de tirar o fôlego: um outro castelo, uma outra torre. Suas paredes eram vermelhas, sua arquitetura gótica exagerada, cheia de torres pontiagudas, parapeitos irregulares, sua forma quase orgânica, retorcida como um pesadelo petrificado. A estrutura era escura, quase preta, mas contornos em azul e ciano davam-lhe um brilho etéreo. No centro da fachada, uma grande janela circular com um núcleo avermelhado, como um olho vigilante e maligno, nos observava. Um portal arqueado na base sugeria uma entrada para uma escuridão sem fim, e espinhos ou raízes cobriam sua base. Acima de tudo, uma lua gigantesca, de um vermelho-sangue intenso, dominava o céu, tingindo as nuvens de um brilho profano. Silhuetas de morcegos dançavam em sua frente, e veias de energia vermelha pulsavam no roxo profundo do céu, aumentando a sensação de caos e poder. Um caminho sinuoso guiava-se da base até a entrada, contrastando com a vegetação escura e espinhosa.
A visão era aterradora, mas em nossos corações de butineiros, a beleza grotesca falava de riquezas além da imaginação. Nossos soldados, contudo, estavam paralisados. Foi preciso um discurso meu, uma promessa de glória e ouro, para infundir-lhes a coragem de seguir. Minha voz ressoou, e a confiança em seus olhos se reacendeu. Avançamos para a “bocarra” que era o portão.
Lá, Lorran, com a astúcia que só os anos de sombra concedem, percebeu que o portão não era apenas uma entrada, mas uma armadilha, adornada com gemas de opalas de fogo. Com a rapidez de uma cobra, ele extraiu as pedras preciosas da estrutura de ferro, garantindo um butim valioso sem ativar a guilhotina mortal. Enquanto ponderávamos o próximo passo, eles surgiram: soldados. Não homens, não criaturas deste plano. Suas armaduras de couro vermelhas e elmos medonhos, com olhos que eram poças de luz rubra, eram incompreensíveis. Esqueletos e demônios fundidos em um só, adornados com armaduras orgânicas de osso e quitina. Tadgh tentou parlamentar, mas eles eram espectros da lealdade. Sem convite, ninguém entrava. O nome de seu senhor? Lorde Demétrio Malevól. Diante de sua clara superioridade, recuamos. Um castelo rubro, um novo inimigo. Por ora, os perigos familiares de Xyntillan eram preferíveis.
A lâmina senciente e o legado subterrâneo
Voltamos para os aposentos dos empregados em Xyntillan, perto do corredor principal, e adentramos um cômodo onde Tadhg havia encontrado uma lanterna peculiar, que se aderia a metais. Lá, uma porta que havíamos ignorado antes nos chamou.
Ao abri-la, revelou-se um quarto com uma mesa redonda e corpos sentados à sua volta, como se aguardassem um banquete que nunca viria. Em um armário no canto da sala, Tadgh vasculhando-o (estoicamente como sempre, sem medo ou receio) encontrou uma armação de óculos de ouro, um ótimo butim.
Além deste, atrás de cortinas empoeiradas, uma porta secreta nos aguardava. Lá dentro, Mosuc descobriu uma espada ornamental. Mas, ao levantá-la, um presságio terrível se concretizou: todas as lâminas do recinto, e do quarto adjacente, voaram até sua garganta. Dezenas de gumes afiados pairavam, prontas para eliminar o elfo. Mas a força de vontade de Mosuc era uma muralha. A lâmina que controlava as outras se rendeu, e uma consciência antiga se revelou: a Lâmina de Rel, mágica e senciente. Enquanto Mosuc reclamava seu prêmio, encontrei algumas garrafas de vinhos e brandys que, na verdade, eram poções mágicas.
Ao nos retirarmos, pisei em alguns azulejos soltos. Um ruído seco ecoou, e Brag, com seu conhecimento intrínseco de anão sobre rochas e construções, discerniu que um mecanismo fora ativado, alguns níveis abaixo de nós. Não nos causou dano, mas foi um lembrete sutil e sinistro da intrincada perfídia deste castelo.
Com o dia chegando ao fim, a Companhia recuou para a Donzela do Butim. A jornada foi custosa, mas a vitória sobre os bugbears era doce, os tesouros e a Lâmina de Rel, grandes recompensas. Outro adversário, Lorde Demétrio Malevól, havia sido revelado. Cansados, mas mais fortes, partimos para Tours-en-Savoy para o merecido descanso.






















