Diário de Xyntillan — Décima nona sessão
Dia 8 de Blac
Conforme combinamos anteriormente com Tristano Malevól, o esqueleto de quatro braços, retornamos em sete dias para encontrá-lo no pátio principal de Xyntillan onde eu, Tadhg, deveria realizar um casamento entre primos mortos. Caso tudo corresse bem. Mas em Xyntillan, as coisas nunca são tão simples.
Com o tempo parcialmente nublado saímos da Donzela do Butim com Brag, Lorran, Mosuc, Bosco (nanico calado e perdido) e Azimandor, que andava meio curvado reclamando que raios poderiam cair em sua cabeça. Enquanto Mosuc e Brag arregimentavam um pelotão de soldados, Roos e Ilifir nos acompanhavam, revezando os cuidados com o “Cérebro falante de Xyntillan”, que estava parcialmente acordado e disse que nos ajudaria a mapear o local.
A viagem foi tranquila. Ganhamos o portão principal do castelo, avançando pelo pátio até próximo da pequena ilhota que abrigava o caixão de Tristano. Nos deparamos com um noivo desnutrido, virado em ossos, de quatro braços estreitos que tentavam se manter dentro de um fraque que outrora esbanjaria elegância e bom gosto.
Eu me detive por alguns instantes na estátua da donzela adormecida que fica no pátio. Mas logo o Cérebro nos avisou que ela não representava nenhum Malevól, muito menos Beatrice.
Então, como o pequeno Bosco andava meio capenga e parecia tossir muito, eu resolvi pedir as graças do bom Deus. Ao esfregar minhas mãos, proferi a seguinte prece, emanando minha energia santificada naquele pedaço de meio homem enfermo por natureza:
— Pela via que vai, pela via que fica. Seu corpo, agora, está fechado para flecha e lâmina, mas o seu toba ficará eternamente aberto para a pica!
Bosco me olhou estranho, parecia não entender a bênção libertadora que recebera, era como se sua vida saísse do armário e a preenchesse profundamente alargando seus conceitos sobre o que, de fato, importava na vida terrena! Fiz a mesma oração, pedindo pela saúde de Brag, nosso fiel companheiro. Que também não entendeu, como se eu falasse em línguas angelicais, o que seria impossível, pois não existem anjos no panteão Celta, de onde tirei meu Deus, Bellenus. Mas sigamos para dentro da quarta parede…
Com os companheiros abençoados, convoquei Beatrice Malevól, a noiva fantasma, que apareceu trazendo um vento agitado e pesado, que se acalmava e pulsava como se emanasse seu antigo coração de carne já apodrecido e que não estava mais em sua forma etérea.
Não foi preciso conversar com a dama para convencê-la do bom partido, pois Tristano já sacou um pequeno alaúde e iniciou uma canção de amor com seus dois braços superiores. Com os outros dois ergueu uma rosa e uma taça de vinho e passou a cantar a seguinte canção:
Nos salões vazios do castelo esquecido,
Onde o vento dança e o eco é ferido,
Encontrei teu véu brilhando em luar,
Fantasma doce, meu eterno lugar.
Mesmo sem carne, sem pulso ou calor,
Meu peito range com velho amor.
Se teus dedos frios tocarem os meus…
Prometo, minha amada, ser todo teu.
Ó noiva pálida, aceita meu querer?
Mesmo na morte, eu quero viver.
Diz que sim — sussurra ao chão —
E casa comigo, na eterna escuridão.
Beatrice Malevól, aquela que nos pedia a cabeça de Bartolomeu, seu noivo que a abandonara no altar, agora caía de amores pelas habilidades românticas de outrem. Ela, então, agradecida, exigiu que eu, como o único clérigo presente, unisse os dois em matrimônio eterno e me atirou um pequeno broche dourado.
Mas, como já expliquei, em Xyntillan, nada é tão simples ou fácil quanto parece e, no momento em que eu iniciava os ritos e traçava um círculo no chão entre os noivos, uma comitiva de cinco senhoras desmortas despontou do nada, acompanhadas de um esqueleto segurando um pincel e um pote de tinta. Era Bartolomeu, o noivo fugitivo do altar que tinha sua cabeça orçada em um colar de pérolas e demandada por Beatrice, que se transformou na versão mais furiosa e aterrorizante que uma noiva abandonada pode ser, sendo habilmente contida por Mosuc, que entendia muito sobre mulheres, homens e aqueles que ficavam na metade do caminho, ou que aqueles que retornavam pelo oposto.
Eu tentei entender e explorar os argumentos de Bartolomeu, que, com o bom senso de um Toco com emplastro de ervas, chegava belo e faceiro para, acreditem se quiserem, casar-se com Beatrice!
— Eu não a deixei no altar, eu apenas me atrasei, pois a verdadeira arte não possui hora, nem lugar e a inspiração por vezes demora um ou dois séculos. Mas agora estou aqui e se ela não casar comigo, não casará com mais ninguém! — Sentenciou Bartolomeu, ordenando que suas concubinas atacassem sua (agora “oficialmente”) ex-noiva.
— Então Beatrice terá sua cabeça — Avisei e girei minha maça para liberar a água benta nela contida, e desferi um golpe com toda a força que eu poderia, mirando justamente na cabeça do esqueleto.
Sobre a postura de Bartolomeu, farei uma ressalva que convencerá o senhor leitor, de, quase 1500 motivos pelos quais deveríamos, no âmbito da ficção, arrancar a cabeça daquela criatura vil.
Dados do último Anuário Brasileiro de Segurança Pública, lançado em julho de 2025, que traz dados referentes ao ano de 2024 e é mantido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, registraram 1.492 mulheres vítimas de feminicídios no Brasil, o que representa quatro mortes por dia e um crescimento de 0,7% em comparação com 2023. O número é um recorde do recorte histórico analisado, que começa em 2015, com a tipificação do crime de feminicídio. Analisando a série histórica completa o crescimento é de 19%.
Feminicídio é o assassinato de mulheres em decorrência do seu gênero, majoritariamente cometido por companheiros (60, 7%) e ex-companheiros (19,1%), sendo que 97% dos casos com autoria identificada, o criminoso era do sexo masculino. Bartolomeu gabarita os dados com a clássica ideia de “se ela não for minha, não será de mais ninguém”. A Companhia do Butim demonstrou o contrário. Mas não façam isso no mundo real, amiguinhos. Nenhum clérigo aprovaria.
Então minha maça encontrou Bartolomeu que conseguiu me golpear na altura das costelas. Foi um golpe forte, senti dor e raiva. Do nada, como os raios que atormentam a cuca de Azimandor, pularam duas pulgas disfarçadas de Hobbits. Era Lorran, o quase invisível, e seu colega Bosco, o calado, que desferiram golpes poderosos e terminaram de decapitar Bartolomeu.
As cinco damas que atacaram Beatrice tiveram seu fim nas mãos dela, Mosuc e Azimandor, sem muito esforço. Com isso, pois após decapitar um esqueleto e assassinarmos cinco damas fantasmagóricas em legítima defesa, resolvemos dar sequência ao casório, pois, é aquele velho ditado: Xyntillan não é para os fracos de espírito, tampouco para os sensíveis de alma ou moral rígida.
Improvisei, novamente, um círculo no chão, pedi que os noivos se dirigissem para ele. Mosuc jogou umas rosas em linha e catou galhos e ramos, formando uma pequena trilha por onde os dois avançaram até o círculo.
Peguei uma tigela e enchi com a água do lago, passei uma gota em suas testas. Temi que se usasse água benta, aquelas criaturas amaldiçoadas sentiriam dor e desconforto em seu belo momento. Acendi uma vela para iluminar seus rostos e usei minha pluma de escrever para fazer o vento tocar suas faces. Por fim, com um punhado de terra de Xyntillan, o que não pareceu a melhor das ideias, mas, de improviso, era o que tínhamos, coloquei sobre suas mãos, selando o compromisso com o mundo ao redor.
Pedi que unissem as mãos para formar o antigo símbolo da união. Tristano ergueu as quatro e perguntou qual, indiquei que qualquer uma, ele sorriu e ofereceu a esquerda, que tocou a direita de Beatrice. Saquei antigos lenços de lã tingidos de vermelho, para o amor, dourado para a abundância e verde para a vida que renasce.
Então, uma a uma os lenços foram enrolados em torno dos punhos do casal, enquanto eu recitava votos de fidelidade, coragem e partilha.
Eles repetiram comigo:
Diante da terra que nos sustenta e do vento que leva nossas palavras aos ancestrais, eu te prometo fidelidade.
Que meu coração jamais se afaste do teu, nem nos dias de luz, nem nas noites de sombra.
Que eu caminhe contigo, firme, verdadeiro, sem quebrar o laço que agora nos une.
Que os fogos antigos sejam testemunhas: eu te prometo coragem.
Quando o medo se erguer, serei teu abrigo; quando a dor chegar, serei tua força.
Junto a ti enfrentarei tempestades, e em teu nome erguerei minha voz, pois não há caminho que me faça recuar enquanto meu espírito chamar pelo teu.
Pelo ciclo eterno que rege todas as coisas, eu te prometo partilha.
Que nada do que sou te seja negado, nem alegria, nem lágrima, nem sonho.
Dividirei contigo meu pão, meu teto e minha esperança, e juntos construiremos aquilo que o tempo não pode apagar. Tudo o que tenho, tudo o que serei, contigo reparto.
Então atei o último laço, que não simbolizava a prisão da maldição a que eles já estavam destinados, mas um caminho trançado para que os dois possam caminhar juntos. E para selar a união, retirei os lenços, abençoados, e os levantei para o céu. Eles estavam casados na glória ancestral de Bellenus. E sob o céu crepuscular, os espíritos, invisíveis mas presentes, guardavam o início daquela nova jornada. E assim se foram sem dizer nada, mas visivelmente mais leves e com algo que até poderia ser entendido como alento e felicidade, se é que isso poderia sobrepujar as tintas de dor que tingiam Xyntillan com seus pigmentos profundos e misteriosos.
O Cérebro do Butim
Bartolomeu me contou, quando tentava entender os motivos de sua ausência antes de partirmos para as vias de fato, que aquela sala tomada por Harpias era o seu atelier, e confirmou que, passando por ele, chegaríamos a “grande biblioteca de Xyntillan”. Isso ganhou a minha atenção, mas Mosuc que é tão pragmático quanto romântico, avançou com a tropa pela famigerada porta que abre para o corredor das seteiras, seguido pela sombra baixa de Brag. Lorran se escondeu e Bosco e Azimandor seguiram o fluxo dos soldados. Foi o que me restou.
Rumamos para o norte, pelo pátio interno e Mosuc saiu abrindo portas e mais portas para o oeste e novamente para o norte. Chegamos a uma sala com seis carniçais e fugiram assim que ergui o sol de madeira entalhada que simboliza Bellenus, o bom Deus. Era uma espécie de dispensa de itens de jardinagem. Mosuc dava risadas altas enquanto mandava soldados carregarem um saco de sementes douradas e pesadas, como ouro puro, com os dizeres “fórmula milagrosa” rudimentarmente pintados na estopa. Um outro saco era de rabanetes e também virou butim.
O ponto alto da incursão se deu, na verdade, não no casamento, mas no pequeno baú com roupas de criada que Mosuc abriu. Ele avaliou o estado, estavam impecáveis. As recolheu, atirou as roupas para Brag, pediu que guardasse com todo o carinho e disse, com um sorriso que mostravam seus dentes brilhantes:
— Manoel vai adorar! — Seja lá o que isso signifique…

Em outra sala, uma estátua e um enigma. “A besta de Gull” tinha a seguinte inscrição: “mantenha bem o seu segredo, a besta que é cega, mais palavreado você encontrará”.
Confesso que pensei em um livro, mas talvez, mesmo que longe dos seus aposentos, isso possa nos fornecer uma pista sobre a cegueira da Besta de Xyntillan. Não temos como saber, por enquanto.
Chegamos em uma outra sala, bem ao norte, que Azimandor ficou enlouquecido. Mais do que o habitual. Era uma sala de banho, com uma grande banheira de madeira, regada por uma estátua de uma Salamandra bem grande, enrolada em um belo vaso de mármore, de onde a água jorrava para dentro da grande tina. Esta, por sua vez, estava cheia de cobras de diversos tamanhos nadando na banheira.
Quando olhamos para o lado, tivemos aquele tipo de visão que não pode ser esquecida, por mais que tentemos feitiços poderosos de cura, restauração e similares: Azimandor estava pelado e cheirava a água da tina, ameaçando mergulhar nela e balbuciando, aos soluços e com a boca mole de poucos dentes, que a água era tão mágica quanto o jarro e poderia curar sua maldição.

Desaconselhado por Moscu e Brag, que rapidamente saíram da sala, ele desistiu e passou o resto da incursão tentando fazer seu manto azul passar por um dos braços, mesmo que o buraco que ele enfrentava fosse para a cabeça…
Em uma sala, Mosuc achou um sapo gigante, muito cheiroso e indiferente, e quatro frascos que pareciam perfumes. Logo ao lado uma outra sala de banho, como toda a região por ali parecia ser, tinha um cadáver gordo boiando cheio de larvas em um caixão. Nada de útil por ali.
Até que entrei em uma sala e quase expulsei o interior do meu estômago. Tudo apodrecia, fungos começavam a brotar e a sensação de indigestão e desespero era tamanha. Toco teria tido problemas aqui, com certeza. A sala tinha duas portas marcadas como “da sorte e do azar” e uma na parede oposta, ao sul, que Mosuc avançou. Eu suspeitava que a sala reagia ao alinhamento moral de cada um, mas não era o caso. De fora, estranhamente, não víamos a podridão e os fungos, mas era colocar um pé dentro e até a corda que Brag utilizou para poder puxar Mosuc de volta, parecia sofrer.
Na inspeção da sala adjacente, Mosuc encontrou um chifre recheado com 260 moedas de cobre em seu interior. Parecia um berrante, um instrumento musical, ou um corno de aviso de tropas que ele deu para Brag, pois Mosuc já tinha recebido um colar de pérolas de Beatrice, por todo o auxílio com o casamento e estava estranhamente altruísta hoje. Deve ser por conta das roupas que ele dará para a Taverneira Manoel. Será que Mosuc se aventura por Xyntillan para encontrar este tipo de tesouro? Vai saber…
Retornamos ao pátio principal de Xyntillan e Brag soprou o tal chifre que começou a cuspir moedas e mais moedas de cobre. Ficamos intrigados e felizes. Brag e Mosuc faziam planos de derreter o cobre e usar na forja de Brag, e deixamos Xyntillan. Eu, sentindo uma das costelas, talvez partida, mas com a fé intacta no matrimônio pós-morten. Talvez em Tir-Na-Nog eu me case, quem sabe?
A viagem de volta teria sido muito tranquila, não fosse um dos nossos contratados, Maret, um Hobbit gorducho e fanfarrão, morder um dos rabanetes que explodiu em crescimento e o esmagou, literalmente, ficando do tamanho da nossa carroça.

Uma pena. E, assim, a Companhia do Butim, a quem o destino nos uniu, chegou à Donzela do Butim. E quem quiser que conte outra!






















