Diário de Xyntillan — Décima Sexta sessão
Consertando o mago inútil – diário de Taobragonem, filho de… [tosse]
(Manchas de cerveja e fuligem cobrem a página)
Meus pulmões estão em chamas. Cada dia nesta companhia começa com uma tosse que rasga a garganta e termina com a exaustão de mal conseguir respirar. Mas um anão não para. Um anão suporta.
Nossa última incursão foi um desastre. Azimandor, o mago inútil, tocou em um caramujo fossilizado e fritou o cérebro. Como se ele já não fosse louco o suficiente! Agora, uma nova figura apareceu: Tryni Al’Vira. Diz ela que é filha dele. Olhando para a determinação fria em seus olhos, eu quase acredito; ela tem o mesmo fogo que ele, mas sem a estupidez.
Ficou decidido que o mago não servia para nada babando no chão. Tínhamos que arrastar ele até Chamrouse, ver se algum clérigo conseguiria consertar o que ele quebrou. E Lorran… o hobbit ainda parecia meio morto, pálido e frágil desde que aquele fantasma o tocou. Então, arrastamos os dois, com uma escolta de dez cavaleiros, para a cidade. Wathgar, Mosuc, Tadhg, eu… toda a maldita companhia em uma missão de babá.
A viagem foi um inferno de poeira. Cada passo dos cavalos era um soco nos meus pulmões. Chegamos, passamos a noite, e Roos finalmente usou sua magia para curar Lorran. O hobbit recuperou a cor, o que é bom. O patife me deve dinheiro.
No dia seguinte, fomos ao Templo de St. Jyjax. O clérigo de lá, vendo o estado patético de Azimandor, obviamente tentou se aproveitar e deu o preço: 400 peças de ouro pela cura do mago. Achei ridículo, mas Tryni não titubeou e nem quis saber de conversa. Ela jogou 400 moedas de ouro na mesa: “Ele foi um pai ausente”, disse ela, sem um pingo de emoção. [tosse seca]… Pagar com ouro. Isso é linguagem de anão. Respeitei a garota. A cura foi feita. Azimandor parou de babar, recuperou a sanidade (parcialmente ao menos) e começou a resmungar, o que é (suponho eu) uma melhora considerável para este velho.
De pedras eu entendo
Voltamos para a Donzela e, claro, direto para Xyntillan. A chegada ao Castelo foi… quieta. Quieta demais. Sem percalços, mas o tempo seco apenas serviu para piorar minha tosse. Inferno…
Lá chegando, pensamos em seguir pelo pátio de serviço, pelo corredor das seteiras. Mosuc, o elfo negro que acha que portas são sugestões, foi na frente, chutando tudo até chegarmos ao pátio interno.
O pátio é amplo, com arbustos e uma torre no canto nordeste. Uma bela torre feita de pedra em rocha entalhada. No centro, o que aparentava uma cisterna: identifiquei como sendo o caminho ao oubliette, mencionado por Claudete Malevól, destino da busca a seu anel, que ela nos confiou. A cisterna, infelizmente, estava coberta por um pedregulho enorme, com diâmetro largo de cerca de 10 braçadas. Calculei seu peso em toneladas! O ingênuo Wathgar, pensando em movê-la com os braços ou uma mera alavanca… dissuadi o rapaz. De pedras eu entendo e aquela não iria se mover tão cedo daquele local sem um bom guindaste.
O lugar era um circo de estátuas. Também de pedras. Me interessei! Eram três colunas, no topo das quais haviam um Rei, um Macaco e um Corcunda.
A estátua do Rei segurava um orbe que parecia conter o próprio universo. Lorran, que desde o incidente com as aranhas parece ter perdido o juízo, decidiu escalá-la. Nas batalhas ele some, mas para o butim ele corre na frente… patife esperto. No momento em que ele alcançou o topo, a estátua de pedra moveu-se e arremessou o maldito orbe… direto na minha direção!
Eu me joguei no chão, e o orbe passou zunindo pela minha cabeça, se espatifando contra a parede. Lorran, em pânico, pulou da estátua e caiu no chão como um saco de batatas, se machucando todo. Tadhg, suspirando, foi curá-lo. O hobbit se levantou, olhou para mim e para Tadhg com uma cara maníaca que não lhe era comum… algo estranho acontecia com o pequeno [tosse]… Um dia eu ainda esmago esse baixinho.
A estátua do Macaco era ainda mais estranha, com escamas e rabo de crocodilo, e sem olhos. Mas não reagiu a nada. Já a estátua do corcunda era só feia. Tadhg, com sua fé irritante, teve que zombar da pedra.
E a pedra respondeu.
“Tu que vai ser corcunda!”, rosnou a estátua. E começou a xingar todo mundo. Lorran e Mosuc perderam tempo tentando conversar com ela. Tadhg zombou mais. A estátua só resmungava: “Tu que vai ser corcunda!”. Este castelo é um asilo de loucos e até as pedras não são confiáveis.
Avançamos pela passagem, que atravessou um corredor para outro pátio. Este corredor ao leste levou para o salão de tortura, onde despachamos um Malevól semanas atrás – é o machado dele que está decorando a parede da taverna, aliás. E não é que o mapa do baixinho está fazendo sentido?! Nunca imaginaria um hobbit conhecer tanto de castelos…
Luta, o trono e o cetro
No outro pátio, pouco mais amplo, dois portões de cada ponta, e mais colunas com estátuas. A primeira delas era uma princesa mandando um beijo e a segunda um cavaleiro com a mão direita arrancada. Nada demais nas estruturas. Tadhg, finalmente, cansado das estátuas, forçou uma porta dupla ao leste. A sala do trono!
Ele viu algo, fechou a porta na mesma hora. “Seis criaturas!”, ele sibilou, já começando suas rezas e abençoando o grupo. Eram orbes eletrificadas: Razzle Dazzles.
“Muralha de escudos!” gritou Wathgar. Era minha deixa. Plantei meus pés. Meu escudo travou ao lado do dele. Meus pulmões podiam falhar, mas a linha de um anão, nunca. A porta foi reaberta. Seis daquelas nuvens elétricas, iguais às que mataram o soldado Dimitri, vieram para cima de nós. O baixinho sorrateiro imediatamente some, como sempre…
(As notas da batalha estão borradas, Brag tossiu nelas.)
… e tudo finalizou rapidamente, com o exibido do Wathgar conseguindo neutralizar o último apenas com um soco de sua manopla… bah!
Entrando na sala do trono, o ar ainda fedia ao ozônio. Ótimo, mais merda para respirar. [tosse seca]… A sala era grande, obviamente. Colunas de pedra de cada lado – a alvenaria parecia decente ao menos. No meio, um tapete puído, tão imundo quanto o resto deste buraco, que levava ao trono. Já o trono, era de pedra sólida, grande e frio. Pelo menos isso fizeram direito!
Flanqueando o trambolho do trono, duas latas velhas: armaduras completas, completamente enferrujadas, segurando alabardas. As armaduras eram lixo inútil, nem para sucata serviam, mas as alabardas talvez ainda tivessem salvação. As recolhi, com a intenção de ainda domar aquele maravilhoso martelo ferreiro que trabalhava sozinho. Teias de aranha cobriam o resto todo, maiores que a minha barba, provando que ninguém limpava essa pocilga há décadas.
E no teto, a frescura de sempre: globos de vidro que refletiam as tochas, criando uns fachos luminosos bestas. Como se as luzinhas fossem fazer alguma diferença. Perda de tempo.
Lorran, sorrateiro como ele só, já saiu vasculhando o trono, apesar da minha insistência em ajudá-lo. Ele encontrou algum mecanismo que acionava algum truque ou compartimento secreto e salvou a incursão: um cetro de ouro maciço! Excelente butim! De resto, nada demais, encontramos corredores familiares atrás da cortina ao fundo do salão e a passagem ao sul também levava aos calabouços que havíamos passado anteriormente.
O ladrão e as perversões dos homens altos
O tempo urgia e com o butim garantido, resolvemos deixar o castelo, pelo mesmo local que entramos, saindo pelo portão do corredor das seteiras… E foi então que o vimos. Ele.
Gérome Malevól. O patife de bochechas vermelhas. O ladrão que fugiu escada acima enquanto Watford tentava detê-lo, pouco antes daquelas vinhas malditas o matarem. E aqui estava ele, saindo do castelo com um saco cheio de itens.
Mosuc ficou enfurecido. Não por Watford, claro. Mas porque Gérome estava roubando o nosso butim. Wathgar comandou alguns da infantaria seguirem-no em perseguição. Inútil. “Ladrão!” gritou Mosuc. E suas flechas foram precisas. Thwack. Thwack. Gérome caiu nocauteado. Mosuc queria cobrar um imposto dele, uma sacola de butim por semana. Tadhg, previsivelmente, curou o desgraçado. E então, o clérigo pediu para amarrá-lo em… kinbaku? Eu nem perguntei. Estou doente demais para entender as perversões dos homens altos. Pegamos o saque dele para nós, pura justiça. Na Donzela ele vai nos responder algumas perguntas.
Retornamos para Tours-en-Savoy, seguros (mesmo que ainda esbaforido).
O preço da respiração
Eu estava farto. Farto deste castelo. Farto dos fantasmas, dos ladrões idiotas e das estátuas falantes. E, acima de tudo, farto desta tosse. Farto de ser fraco. Eu precisava de um banho e uma cerveja.
Em Tours-en-Savoy decidi espairecer. Havia uma festa. Bando de idiotas barulhentos. Mas eu fui mesmo assim. E no meio daquela bagunça, eu o encontrei. Estava escondido, como se me esperasse. Um artefato.
Era um par de tesouras de prata. Elas não brilhavam como prata comum; pareciam absorver a luz da taverna. E elas vibravam levemente na minha mão, as lâminas se abrindo e fechando com um snip… snip… baixo e ameaçador, como se ansiassem por algo para cortar. Um arrepio percorreu minha espinha. Senti que qualquer um ferido por elas não sairia ileso… não na mente. Ponderei se Azimandor cortou-se com elas alguma vez.
Eu levei o objeto. Escondido. Naquela noite, no silêncio do meu quarto, eu o examinei. A tosse me pegou, um espasmo violento que me dobrou ao meio, me fazendo cuspir catarro no chão. Maldita doença. Eu olhei para a tesoura, e ela parecia zombar de mim. Snip… snip…
Eu não sei o que aconteceu. E não dou a mínima, se foi um pacto ou um ato de desespero. Apontei a tesoura para o meu próprio peito, onde a doença residia. Senti um frio que não era deste mundo emanar do metal. As lâminas estalaram, ameaçadoramente, perto da minha carne.
E então, eu respirei.
Não foi a respiração curta e chiada de antes. Foi uma lufada de ar limpa, funda, que encheu meus pulmões até a base. Eu esperei. A tosse não veio. O aperto no meu peito… desapareceu. O enfisema, a doença que me definhava… sumiu.
Eu não sei que preço eu paguei. E não me importo. As tesouras estão quietas agora, mas eu sei o que elas podem fazer. Eu sinto o risco delas, a promessa de loucura em seu gume de prata. Melhor para eles do que para mim. Mas de pé, no silêncio do meu quarto, eu respirei fundo novamente. Eu estava curado. Eu estava forte. E agora, eu tenho trabalho a fazer.






















