Finnian Pagemore

O bardo dragão

Finalmente cheguei à cidade de Tours-en-Savoy. É, eu sei, o nome é impronunciável. Parece uma mistura de algum élfico antigo com alguma coisa de outro mundo. Para piorar o povo local é meio fresco e ainda projeta os lábios pra frente, como se fosse jogar um beijinho ao vento a cada vez que falam alguma coisa como “Savoy”. Que se fala “Sá-vou-á”. 

Parece “turista-en-saboado”, falando ligeiro, mas se existem duas coisas que faltam nessa cidade são turistas e sabonetes. 

Oh, que tormento, meu nariz chora!Passa na aldeia, segura a aurora!

Mais forte que peste, que praga ou trovão,

É o cheiro do povo sem banho e sabão!

Mas vamos parar de enrolar pois tenho apenas um punhado de papiros amassados, um pote duvidoso de tinta e uma pena de ganso que não foi exatamente uma doação espontânea. Você já viu, falando nisso, uma revoada de gansos selvagens? Pensando bem, os gansos selvagens voam? Tenho a impressão de que o antigo dono desta aqui voou depois que eu… Bem, deixarei aqui uma nota mental para perguntar para algum druida. Eles saberão disso, se não souberem como obtive esta bela pena, é claro. 

Vamos colocar da seguinte forma, para não ofender os locais, caso meus escritos caiam nas suas mãos pouco cheirosas: essa cidade é algo que já foi. Talvez aqui esteja uma boa definição. 

Ela se retroalimenta de uma mistura de decadência e memória de uma família de nobres do passado que todo mundo ouve falar, mas ninguém sai por aí dizendo que conhece, de fato. É como se pronunciar o nome “Malevól” fosse tão cercado de superstições quanto tratar mal um bardo. Lembrem disso, aliás! 

Mas por qual motivo eu vim parar nesse atraso civilizatório? Alguns diriam que  “é a terra, estúpidos” , pois uma propriedade por aqui não parece ser das mais caras. Outros que trata-se de pura ganância e febre do ouro. Eu diria que nem uma coisa, nem outra. 

Certa feita, enquanto eu me recostava sob a sombra de uma frondosa macieira, uma destas frutas geniosas caiu diretamente sobre a minha cabeça e “bum!”, tive uma visão. Ficou tudo meio preto, meus olhos falharam e um galo brotou na minha testa como se fosse um maldito cogumelo do campo. 

Então, quando acordei, meus primos estavam chegando para ajudar na colheita. Acontece que enquanto eu me recuperava da dor de cabeça, recobrava a razão e tentava impedi-los de me arrastarem para o trabalho braçal, vi três viajantes passando, apressados. 

Um anão barbudo com seu machado, um elfo de cabelos longos carregando um arco (quase dois pleonasmos viciosos), e um homem barbudo e desgrenhado, com pernas longas como as de um coelho animado, dando passadas compridas e apressadas. Eles murmuravam algo sobre “aventuras”. Salvar uns nanicos, destruir um item mágico em um vulcão ativo e deter os planos de um grande vilão. 

“Bingo! É exatamente isso que eu preciso!”, pensei na hora. De preferência sem a parte do “grande vilão”. Podemos começar com um, apenas, “vilãozinho-inho-inho”?

Interrompi o passo dos meus primos, avisando que precisava correr, pois quando aquela maçã  caiu na minha cabeça, eu percebi que ela era mais dura do que eu imaginava e que eu tinha, portanto, a couraça necessária para me tornar um aventureiro. Afinal, havia acabado de sobreviver ao meu primeiro combate. E saí correndo e dizendo algo como “o inverno está chegando”. 

Passei alguns maus bocados. É verdade, confesso! Fui assaltado por uns homens-sapo fedorentos, com odor de pererecas sujas que, lembrando disso, me pergunto: seriam os habitantes da Turista Ensaboado homens-sapos disfarçados? O cheirinho é parecido, até.

Aí ouvi a história de um bardo que pedia uma moeda para um bruxo, de um reino distante, e fazia relativo sucesso. Entendi que era esse o tipo de aventureiro que eu fora talhado para ser: aquele que entra na zona de guerra, sem entrar na guerra, e que combate com palavras, apoiando os guerreiros e dizendo como eles devem fazer melhor o que fazem de melhor. Destravando suas habilidades e ensinando os gatilhos certos para tal. 

Até criei um programa em que subia uma montanha com outros aventureiros para eles encontrarem o seu “espírito da grande aventura”, mas o meu colega que projetava a voz como se fosse uma entidade despencou lá de cima com pedras rolantes e achei melhor encerrar aquilo que eu chamei de “mentoria”. Era um mentor de mentira, entendeu? 

No fundo eu sou um visionário. Como não toco nenhum instrumento com o requinte de Hendrix ou Halen, me especializei em contar e registrar histórias. E criar minhas próprias lendas e imortalizá-las em baladas épicas e fenomenais!

Acontece que uma boa história só é boa mesmo quando é, digamos, melhorada por alguém que entende do assunto e conhece os anseios humanos. Então, em toda lenda que eu crio, pois deuses e o tal do sobrenatural não existem, eu sempre coloco bastante violência, sexo e temas polêmicos, como mamilos. Você já imaginou como um grupo de aventureiros ficaria espantado ao se deparar com um dragão vermelho com mamilos escamosos amamentando seu bebê? Viu só? Polêmicas vendem! 

Por isso que eu acabei em Turista Ensaboado. Ouvi que lá tem uma cidade, que tem um castelo, que tem uma mansão, que tem baús , que tem tesouros, e que não têm, exatamente, um dono… Mas não, não fiz está viagem por dinheiro. 

Tenho uma ideia genial: um gnomo inventor chamado Gutenberg  me entregou o projeto de uma máquina mágica que é capaz de transformar uma folha de texto em cópias exatas e infinitas desta mesma folha, com o mesmo texto. Tudo perfeito! 

Com isso eu poderei escrever minhas lendas, colocar um jovem goblin de pés descalços em cada esquina distribuindo minhas histórias em cada grande cidade e fazer o mesmo com vários outros bardos para escreverem sobre os principais acontecimentos de cada uma das suas cidades. É tão empolgante que esqueço de tomar fôlego! 

Com isso o alcance do meu poder será inimaginável. Serei intocável e temido até pelos magos mais poderosos. Pois antes de tentarem destruir meu corpo físico, o que não é nem um pouco difícil, saberão que eu serei capaz de destruir suas reputações! E nome, meus amigos, só temos um. Certo, tenho dois, “Finnian” e “Pagemore” mas você entendeu o conceito.

Eu só preciso achar uma forma do povo aprender a ler. Mas isso é um problema menor…

Então acabei entrando para um grupo de aventureiros sem nome que tinham uma carroça, um burrinho e muito boa vontade, mas, até aqui, pouco talento. 

É a segunda ou terceira vez que eles invadem o Castelo Xyntillan. Só um gnomo druída com nome de elfo (“Lalwen Iphir” algo como carvalho feliz ou Orvalho molhado, na língua dos elfos de um tal de Tolkien, não lembro bem) que atira pedras nos inimigos sobreviveu para contar histórias. 

Mas ele mostrou ser sólido e apesar de não passar de um metro e meio, o que não pode significar boa coisa, pois parece sempre que está encarando o meu umbigo, ele tira umas frutinhas gostosas dos bolsos que fazem eu me sentir bem. E, não sei como, ele tem muito dinheiro e boas ideias, desde que sejam executadas pelos seus companheiros, quando isso reflete algum perigo. 

Há também um guerreiro feroz, o Tobias. Ele é um cara bacana, mas apanha muito. Parece um ímã de flechas brandindo um machado. Talvez contra árvores ele se saia melhor. Poderia virar lenhador. Que o druída não leia esta parte…

Ah, é, quase me esqueço! Tobias e Balto, um anão brucutu com o carisma de um albatroz, foram aparentemente liderados pelo gnomo, e por mim (eles não sabem disso, mas, no fundo, a grande mente que move estes aventureiros é o Pagemore, aqui), até uma antiga coisa que eles chama de “Taverna” deles. Parece a toca de um bando de Koboldes desnutridos, pois as portas não fechavam, as janelas estavam quebradas. E era bem fedorenta, como quase tudo por ali…

Aí parece que, de quebra, entrei numa quota da sociedade da Taverna da Perdição (não sugerir este nome e lembrar algo como “Valfenda”). O detalhe é que esta “taverna” que deverá custar alguns milhares de moedas de ouro para ficar decente, fica quase no meio de uma floresta e a cidade possui três outras tavernas, mesmo que uma pior que a outra, pois devem feder e os lençóis das camas devem viver infestados de pulgões. 

Até agora o público esperado para esta “Taverna que um dia será” é uma dúzia de camponeses que resolveram criar um assentamento agrícola no meio de lugar-nenhum. 

Mas não posso deixar de registrar como iniciei belas negociações com os aldeões para acelerar o serviço de reforma. Em breve sinto que eles irão bater na nossa porta (olha só, já estou em casa!) pedindo para trabalhar neste belo empreendimento. Só precisam, talvez, aprender alguns gatilhos mentais para destravar bloqueios que os impedem de ver e agir com excelência, servindo nossos interesses!

Bem, o que dizer da primeira incursão que fiz a Xyllintan, ou Xyntillan, ou Tilintintin Cintilante… Tanto faz. É um castelo velho, com uma fossa meio seca, um ou outro buraco no muro e duas entradas principais. É um muro de pedra, alto, com algumas torres de guarda e uma mansão dentro. 

Agora me expliquem quem resolve invadir um castelo pela porta da frente? Parece que esse foi o grande plano de outrora e ficou no ar alguma piada interna sobre um guerreiro que corria para abraçar flechas. Entendi porque apenas o Gnomo voltou vivo com uma história sobre depredarem a estátua de um gárgula da outra porta, esta, lateral, à esquerda da primeira. 

Como a ideia era depredar, fui entrando no clima de baderna! 

Peguei emprestado um gancho com o Tobias, pouco depois do Gnomo avisar que deveria haver duas dezenas de arqueiros guardando o pátio do castelo. Achei uma parede com o muro mais baixo, amarrei a minha corda, enganchei no muro e subi. Achei que ia ser mais difícil, sabia? Só precisei jogar uma pedra no telhado do outro lado, quando notamos que os guardas ouviram o arpéu batendo nas ameias enquanto eu subia.

Pra resumir e chegarmos na parte que importa: eram 17 arqueiros fortemente armados e rigorosamente treinados com bestas poderosas, armaduras completas e escudos impenetráveis que detectaram meus companheiros e passaram a disparar seus virotes contra eles, lá de cima da amurada, que apenas eu consegui escalar. 

Então, tomado de um heroísmo que me é característico, me concentrei em salvar meus colegas e canalizar minha herança dracônica. Poucos sabem disso e, talvez você, leitor, possa até duvidar, mas caso você tenha a disposição de ir até o castelo olhar por si próprio, encontrará todas as provas do meu mais fidedigno e preciso relato. Marcas de fogo e explosões confirmarão minha linhagem, sem dúvidas plausíveis. 

Lembram do dragão vermelho com mamilos escamosos, amamentando seu bebê? Eu era aquele bebê. E foi minha mãe que transou com aquele dragão. Mas não darei detalhes dessa safadeza. Apenas imaginem…

Isso me conferiu, digamos, habilidades especiais. Portanto disparei duas bolas de fogo, uma de cada um dos meus dois olhos dracônicos, que neutralizaram instantaneamente nove dos dezessete guardiões do castelo. E ainda dominei e rendi mais três deles, que molharam as calças de medo ao perceberem o tamanho da encrenca que haviam se metido. 

Enquanto isso, o Gnomo e os guerreiros, Baldo e Tobias, cuidavam dos outros cinco guardas e assassinavam Gilbert Malevól, o Raposa. 

Cansados, meus colegas pediram para retornar para a nossa taverna para um descanso merecido. Então aproveitei e colhi duas rosas, que só podem ter sido cultivadas com aquela beleza e tamanho para disfarçar o odor característico daquele povo sem asseio. Assim sendo, dormi o sono dos justos e o resto é irrelevante, tal qual uma formiga separada e isolada de seu formigueiro. 

Nos aguardem, oh criaturas de Xyntillan, pois a trupe do Bardo Dragão, batizada de Companhia do Butim, retornará para desvendar os mistérios que envolvem esta casa e sua família amaldiçoada com o odor do orifício de um troll! 

Escutem bem, oh nobres, plebeus e ladrões!

Vou cantar a lenda de heróis e vilões,

Da Companhia do Butim, a quem o destino uniu,

E de como a glória, afinal, o bardo redigiu!

Dias
Horas
Minutos
Segundos

“Bola de fogo!”

Finnian Pagemore, o Bardo Dragão

DÚVIDAS?

Nós também temos. Principalmente se nossos personagens voltarão vivos da próxima incursão…

Powered by Agência Garbo