Fogo na torneira, butim e butim

Diário de Xyntillan — Vigésima sessão

Dia 14 de Blac

A manhã começou agitada na Donzela. Brag dormia na carroça, enquanto nossos soldados organizavam sacos de rações e jarros de barro cheios de água. Dessa vez nos certificamos de que os recipientes não tinham sido adulterados com nada etílico, visto que Azimandor estava com as barbas de molho e, de última hora, tinha enviado sua filha, Tryni, no lugar dele, para garantir uma parcela do Butim.

Mosuc organizava os soldados e tentava convencer um bando de um plano peculiar: 

— Então, essa é a oportunidade perfeita para tomarmos Tours, aproveitando que Wathgar está dormindo e não vai ter voto nessa incursão! Vejam bem: chegamos lá, destruímos a loja de antiguidades, colocamos fogo nas tavernas e destruímos a casa do prefeito! — Os olhos vermelhos de Mosuc praticamente faiscavam, seu sorriso estava tão aberto quanto o de Azimandor, nos seus piores momentos de embriaguez. Os soldados olhavam, curiosos, tentando entender qual seria o ápice da piada, visto que muitos eram nativos de Tours. 

Tadhg interveio, enquanto Tryni puxou Mosuc pelo braço e lhe disse qualquer coisa para desviar sua atenção insana daquele plano que poderia levar a destruição não apenas de Tours, mas da própria Companhia do Butim. 

— Pessoal, vejam que hilário! Ele esqueceu o nome da taverna. “A Torneira”, a piada era essa. “Colocar fogo na Torneira”. E como uma torneira jorra água, não haveria fogo, destruição ou nada do tipo, fiquem tranquilos. Foi só uma piada muito ruim e inteligente demais para entendermos em uma primeira olhada rápida. Isso deve ser por conta das aulas de teatro que Tryni está dando para Mosuc. — Explicou Tadhg. 

Então, encerrada a ideia criminosa, que Toco teria abraçado com fervor, pois Tours nunca o tratou bem, partimos para Xyntillan em uma manhã que prometia lua cheia. E isso não poderia ser bom. 

Estávamos eu (Tadhg), Tryni, Mosuc, Ilifir, Roos e mais 28 soldados dispostos entre uma unidade de infantaria pesada, outra de infantaria leve e uma unidade mista de arqueiros e besteiros. 

A chuva e os trovões começaram a explicar a ausência de Azimandor. Ele falava algo sobre estar, novamente, amaldiçoado, e que raios caíriam na sua cabeça. Por isso ele preferiu ficar próximo da lareira do salão da Donzela, onde improvisou uma lança amarrada às costas, dizendo que aquilo o protegeria dos raios…

A breve incursão

Esta incursão por Xyntillan foi curta, mas rendeu bons frutos. Brag estava cheio de energia e carregava uma picareta que usou para colocar abaixo uma parede que ele explicou que seria necessária para termos uma rota segura em algum ponto do primeiro andar do castelo, ao norte, que anteriormente precisaríamos passar por uma sala apodrecendo e cheia de fungos. 

Em seguida seguimos para aquela banheira com cobras que Azimandor ameaçou se banhar e, pensando que poderia haver alguma inteligência na loucura do velho mago, enchi um vidro com a substância e, percebendo que as cobras não apresentavam sinais de bote, entrei na banheira. Ao contrário do esperado, a experiência foi revigorante. Saí e indiquei para Tryni que ela ficasse a vontade caso quisesse testar para contar ao pai a experiência, é claro. 

Não imaginei que ela iria tirar o vestido para isso. O que deixou Mosuc deveras satisfeito e, quando ela pediu que todos se virassem, o assassino protestou, dizendo que garantiria, ao olhar atentamente para a banheira, a segurança da moça caso ela fosse atacada pelas cobras… Apenas eu e Brag nos detivemos em uma parede oposta. 

Voltamos por um corredor e nos deparamos com uma vampira sem cabeça. Tentei me comunicar com ela e só consegui algumas informações após utilizar aquele broche mágico que ganhei de Beatrice. A Vampira é Filomena. Ela perdeu a cabeça e periodicamente se transforma em uma forma gasosa. Nossa sorte é que ela não estava com fome, caso contrário, já teria nos atacado. 

Mas Mosuc tentou roubar um colar de pérolas de uma criatura que, fosse personagem de “Vampiro: a máscara”, teria a disciplina “Rapidez nível 5”…

O resultado foi uma bela pancada que a vampira desferiu contra minha armadura, na região do peito, sem que eu pudesse erguer meu escudo. Mosuc já atirava flechas e Brag estudava a situação como um enfurecido carcaju e partia para nocautear a criatura. 

— Como tu vai nocautear uma vampira sem cabeça? — Protestou Mosuc, sem entender o plano do anão.

— Mas ela não tem perna também? É isso? — Ironizou Brag, com sua voz grandiloquente instantes antes de ver a vampira passando por ele em forma de gás e sumindo do mapa. 

— Na próxima eu derrubo ela! — Sentenciou Brag. 

Em seguida chegamos a uma sala cheia de musgo com uma estátua caída e um belíssimo quadro, de tamanho humano, com um retrato do outono. No chão, caíam do quadro folhas secas que vinham do interior do quadro. 

Então Tryni mostrou seu perigoso talento. Projetou um decote para cima de um soldado de infantaria pesada, se apoiou sobre o ombro do homem e cochichou alguma ideia que fez um soldado barbado e sem dois dentes enrubescer e assentir em pular para dentro de um quadro que ninguém sabia para onde dava, tampouco se dava para algum lugar. E lá se foi, que abanou de dentro do quadro e voltou feliz da vida, se aproximando efusivamente de Tryni. Ela prontamente virou as costas, batendo seus cabelos vermelhos no rosto do soldado que projetava um biquinho como que pedindo um beijo, e se colocou a investigar outros pontos da sala, sempre desviando da direção que o soldado tomava, até que Mosuc o mandou carregar o quadro para o pátio de Xyntillan. 

Brag gentilmente ergueu a estátua que estava caída, gritando que ela era de pedra, e a assentou em cima de um pedestal que a aguardava fazia séculos. Assim que a estátua foi encaixada no pedestal, Brag notou movimento e disparou: 

— Quem é você que tá aí no pedestal, hein?

— Hãn, eu sou uma estátua!

— Eu vi, eu sei, eu gosto, adoro pedra! Vou te levar pra um lugar mais legal: te polir, cuidar de ti, te deixar limpa, pode ser? 

— Eu preferia ficar aqui no meu lugar, mas se você faz questão…

— Claro, aí a gente fica amigo lá na minha forja!

— Certo, então deixa eu te entregar esta varinha como agradecimento: ela transforma folhas em uma criatura que vai te proteger quando invocada, mas cuidado, ela não é 100% confiável, mas costuma ser muito útil. 

Brag agradece e já ordena que alguns soldados carreguem a estátua para fora do castelo e seu butim só melhora, pois em seguida chegamos a uma sala de armas que foi inteiramente pilhada. Eram tantas lanças que poderiam erguer uma paliçada na Donzela…

Continuando a nossa incursão, Mosuc abriu uma porta e vimos uma criatura vermelha de olhos verdes, imóvel. Ninguém quis arriscar. Na mesma sala, correntes barraram uma espécie de armadura completa animada (pelo show da Xuxa, segundo o Castle Keeper) que a atacava incessantemente, como que se sua existência se resumisse a isso. Demos um “senta lá, Cláudia” para ela e seguimos a exploração. 

Encontramos uma serviçal que dobrava lençois, chamada Druxia e nos deparamos com o Tio Monfort, após desistimos de prosseguir por uma sala cheia de mãozinhas assassinas, que o Tio, fedendo a peixe, entrou e fez a festa com suas tesouras, pois ele colecionava dedos…

Então Brag e Mosuc entenderam que o nosso mapa estava errado e passamos o resto da incursão com eles tentando entender onde estava o erro e como arrumar o maldito mapa. 

Assim, ignoramos um Lobisomem uivando no pátio principal de Xyntillan e nos despedimos, mais uma vez, daquele antro de loucura e insensatez. 

No caminho de volta vimos Brag exalando uma aura brilhante, como que se visitado por guerreiros de outrora  ele compartilhou que se sentia mais forte e revigorado, como se estivesse em um nível superior de existência.

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