Diário de Xyntillan — Vigésima terceira sessão
Dia 6 de Revi
Relato de Wathgar, Comandante das tropas da Companhia do Butim
O comando de uma companhia como a nossa é um fardo que poucos compreendem, pois não se trata apenas de ditar ordens ou brandir uma espada, mas de carregar a vida de cada soldado e a memória dos que tombaram em cada decisão. Partimos de Tours-en-Savoy sob uma garoa fina e persistente, um véu cinzento que parecia antecipar o encontro com nossos próprios fantasmas. Fomos eu, Brag, Toco, Brakka, Azimandor e nossos fiéis seguidores Ilifir e Roos. Ao nosso lado, marchava uma força considerável liderados por mim, dezesseis soldados de infantaria pesada, dez arqueiros e dez ginetes, todos prontos para enfrentar o que as entranhas daquele castelo amaldiçoado reservassem para nós.

Presságios e a sombra da coroa
Nossa partida foi marcada por revelações inquietantes antes mesmo de cruzarmos os limites da cidade. Fomos abordados por um de nossos soldados de infantaria leve que, em um desabafo de consciência tardio, confessou ter sido prisioneiro em Xyntillan e fugido de uma execução iminente. Embora ele não soubesse precisar a localização exata de sua cela, ele descreveu um lugar no subsolo que diferia das masmorras que visitamos anteriormente. O homem lembrava-se vividamente de uma colina com árvores vista de seu cárcere, um detalhe que guardei mentalmente como uma peça de um quebra-cabeça que o castelo insiste em esconder.
Como se a sombra do castelo não fosse suficiente, a política do reino finalmente alcançou os portões de nossa estalagem. Um destacamento especial da Coroa, servindo sob o estandarte do Rei Garbha-Lux, interceptou nossa marcha com uma autoridade que não podíamos ignorar. Eles revelaram que soldados infiltrados vigiavam nossas ações há algum tempo, garantindo que nossas atividades não favorecessem os horrores de Xyntillan. Felizmente, fomos exonerados de qualquer acusação de perversão, o que trouxe um breve alívio para a minha consciência.
Contudo, esse alívio veio acompanhado de um aviso pragmático sobre o preço do nosso sucesso. O crescimento da “Donzela do Butim” e o renome da nossa companhia agora atraem o interesse fiscal e tributário da realeza, transformando nossa busca por tesouros em um assunto de Estado. O Rei Garbha-Lux não ignora as riquezas que arrancamos das ruínas, e em breve teremos que prestar contas ao fisco por cada moeda de ouro que trouxemos à luz. É o destino de quem prospera em terras de ninguém: o braço do rei é longo e sempre busca sua parte.
O diálogo com o pelotão real serviu como um lembrete de que a honra e a legalidade andam por caminhos estreitos. Apesar de estarmos livres de suspeitas, o fato de sermos observados em nossos momentos de maior vulnerabilidade me deixou em alerta. Eu não sou homem de temer o governo, mas sei que a burocracia pode ser tão letal quanto uma lâmina enferrujada. Com a informação da exoneração, reorganizei a tropa e dei a ordem de avançar, pois o tempo e os tributos não esperam por ninguém.
O reencontro amargo
Ao nos aproximarmos do caminho lateral na entrada das gárgulas, o destino nos pregou uma peça cruel que testou a fibra de cada homem presente. Quatro zumbis barravam nosso caminho, cambaleando com a falta de propósito que apenas os mortos-vivos possuem. No entanto, a indiferença logo deu lugar ao horror quando reconhecemos as faces deformadas de nossos antigos companheiros entre as abominações. Lá estavam os restos de Mosuc, Tryni e Falkor, movendo-se em uma paródia grotesca da vida ao lado de um antigo pirata morto.
Como comandante, eu não podia permitir que a hesitação e o luto custassem mais vidas aos que ainda respiravam. O choque de ver amigos transformados em carne putrefata poderia romper a moral de qualquer tropa menos preparada. Por isso, com o coração pesado, mas a voz firme, ordenei uma saraivada imediata de flechas contra as criaturas. Os projéteis cortaram a névoa e derrubaram quase todos instantaneamente, poupando-os de uma existência profana por mais tempo.
Apenas Mosuc, o butineiro, resistiu aos primeiros disparos com uma tenacidade que lembrava sua vida. Eu mesmo saquei meu arco e o atingi com uma flecha certeira, mas ele continuou cambaleando em nossa direção, impulsionado por uma maldição que se recusava a findar. Ver o elfo que tantas vezes lutou ao nosso lado avançar como uma besta foi um golpe mais profundo que qualquer ferida física. A cada passo dele, a realidade da nossa missão em Xyntillan se tornava mais sombria e inevitável.
Foi o velho Brag quem, em uma carga carregada de melancolia emburrada, finalmente deu fim ao que restava do elfo. Ele avançou com seu machado e derrubou o companheiro com um golpe que encerrou aquele ciclo doloroso. Não houve celebração ou alegria na vitória, apenas o silêncio respeitoso de quem sabe que a morte em Xyntillan raramente é o fim de tudo. Mosuc o Butineiro descansava agora pela segunda vez, e nós tínhamos um castelo para invadir.
Pelos salões da melancolia
Adentramos o salão principal passando pelo mordomo James, cujo olhar etéreo pareceu não registrar o sangue que já manchava nossas botas. Na fonte perto das celas lindeiras ao salão do trono, Azimandor, em um ato de desespero para livrar-se da maldição dos relâmpagos que o atormentava, atirou-se nas águas milagrosas. Ele sentiu um extremo bem-estar físico, como se todas as suas mazelas tivessem sido lavadas, mas o preço cobrado pelas águas foi puramente arcano. Sua mente relaxou a tal ponto que ele esqueceu cada uma das magias que havia preparado para o dia, tornando-se um mago sem feitiços em um ninho de horrores.
Seguimos em direção às celas próximas ao salão do trono, esperando encontrar novos prisioneiros ou os ecos do julgamento anterior. No entanto, não encontramos ninguém além de poeira e grades vazias. Vasculhamos cada compartimento minuciosamente, mas o silêncio ali era sepulcral, contrastando com o caos das incursões passadas. A ausência de vida ou morte naquele setor nos deixou inquietos, como se o castelo estivesse prendendo o fôlego antes de nos atacar novamente.
Além das masmorras, encontramos um salão de baile amplo, onde algumas cadeiras esparsas pareciam aguardar convidados fantasmas que nunca chegavam. No centro, um apoiador sustentava um grande livro de presença repleto de nomes de Malévols e figuras de renome de eras passadas. Brakka, Brag e Toco debruçaram-se sobre as páginas amareladas, buscando pistas entre as assinaturas. Brag, com sua impaciência habitual, chegou a derrubar o pedestal do livro para testar as defesas do local, mas nenhuma maldição ou trama se manifestou contra ele naquele momento.
Aproveitamos a calma para procurar pelo anel de uma fantasma que nos confiara essa missão em segredo, mas o salão nada nos entregou além de sombras. Seguimos por um corredor marcado pelos restos de combates antigos, com manchas de sangue seco e paredes marcadas pelo impacto de armas de aço. Ao norte, um pequeno cômodo com partituras espalhadas pelo chão revelou uma harpa e um clavicórdio sendo tocadas por mãos invisíveis e fantasmagóricas. Toco, movido pela ganância ou pela esperança de animar nossa estalagem, tentou recrutar as mãos para tocarem na Donzela, mas elas se recusaram a deixar sua melodia eterna.
A tentação era grande, especialmente quando Toco percebeu que as cordas dos instrumentos eram feitas de ouro maciço. No entanto, decidimos não interferir com aquela canção triste, pois o castelo tem formas terríveis de punir quem interrompe sua música. Toco limitou-se a recolher uma folha de música do chão, onde se lia o título de uma obra: “O rouxinol, um madrigal perdido de Angelo B., cantado por uma dama chamada Julietta C”. No salão ao sudeste, ainda encontramos três cadáveres desmiolados de serviçais deambulando, arrumando louças para um banquete inexistente. Por sugestão minha, Brag e Brakka os eliminaram rapidamente para evitar ataques pelas costas, mas não encontramos nada de valor entre os utensílios domésticos.
O fim de Toco e a espada de Médard
A tragédia nos alcançou novamente quando seguimos pelo corredor além da porta leste, que seguia em direção à torre da Serpentina. Encontramos a estátua de um esqueleto ceifador, envolto em manto e capuz, segurando uma foice e uma ampulheta sobre uma placa enigmática. A inscrição perguntava se o visitante desejava o alívio do fardo que carregava, uma promessa tentadora para quem vive sob o peso da guerra. Toco, movido por uma curiosidade imprudente ou cansaço da alma, tentou conversar com a pedra e acabou respondendo diretamente à pergunta da estátua.
O efeito foi imediato e aterrorizante: sem qualquer defesa contra a maldição, vi meu companheiro definhar diante de meus olhos até que a vida o deixasse completamente. Eu o xinguei por sua tolice e lamentei sua perda com uma irritação que mal escondia meu pesar profundo. Para evitar que outros soldados fossem enganados pela mesma armadilha, usei a clava de Brakka para destruir a placa de bronze, transformando a promessa de alívio em metal retorcido e inútil. Recolhi o arco e as flechas de Toco, as últimas posses de um homem que sobreviveu a tanto para morrer por uma frase (nota do editor: mesmo assim Wathgar não usou sua poção de ressurreição no Toco, Bellenus lembrará disso, dirá Tadhg).
Apesar do luto, a missão exigia que prosseguíssemos pela ponte da torre sobre o lago. Puxamos uma corrente pesada que estava retesada na água, enfrentando a resistência de algo submerso enquanto criaturas de pescoço longo se aproximavam famintas. Com esforço coordenado, eu e Brag resgatamos um caixão do fundo antes que os monstros nos alcançassem, fechando os portões de ferro logo em seguida. Dentro do esquife estava Timonfor Malévol, que nos recebeu com balinhas de açúcar e uma conversa macabra sobre sua bolsa de dedos enegrecidos.
Após Timonfor comentar sobre a utilidade do peixe que Mosuc carregava anteriormente, voltamos nossa atenção para a estátua de Baphomet que dominava o local. A efígie de bronze possuía olhos de pedras verdes e uma lua entalhada em uma de suas mãos erguidas ao céu. Brag tentou recuperar o artefato prateado, mas foi atingido por um jato de gosma verde acidificada que feriu sua pele com violência. Mesmo ferido, ele conseguiu extrair a lua, que se revelou uma arma de arremesso formidável. Foi aos pés dessa estátua profana que finalmente encontramos o que buscávamos: a Espada de Médard Malévol, uma espada bastarda de feitura magnífica que tomei em minhas mãos.
Emboscada e retirada
Em um quarto ao norte, exploramos o que restava das posses dos Malévols e encontramos dois mantos preservados. Brakka tomou para si um manto de seda fina, enquanto Brag vestiu um manto branco com uma cruz vermelha, sentindo imediatamente uma proteção mágica que parecia emanar do tecido do cruzado. Escondido sob outros panos apodrecidos, encontramos um prisioneiro delirante chamado Bocco, que afirmava ser um necromante da família. O pobre coitado estava claramente fora de si, mas sua presença serviu apenas para nos apressar a deixar aquele nível.
Subimos para o segundo andar, mas o castelo não pretendia nos deixar partir sem um último derramamento de sangue. Ouvi passos furtivos atrás de nós e, ao me virar, fui surpreendido por um assassino das sombras que tentava estrangular-me com mãos de ferro. Gritei por ajuda enquanto outros carrascos surgiam do breu para atacar Brag, Brakka, Boco e Azimandor simultaneamente. Foi um combate sufocante, onde a habilidade em espaços fechados era a única coisa que separava a sobrevivência da morte por asfixia.
Consegui derrubar meu algoz, mas vi com horror Brakka e Boco caírem sob o aperto de seus oponentes. Até Brag, o veterano, foi desfalecido pela força bruta dos assassinos silenciosos. Lutei contra os restantes com uma fúria renovada até que a área estivesse finalmente segura, permitindo que Roos corresse entre os feridos com suas curas e ataduras. Decidimos bater em retirada imediata para levar Brag de volta à fonte, pois ele era o único que ainda permanecia em um estado crítico de inconsciência.
Carreguei meu velho amigo sobre os ombros, passando pela sala onde Boco, em um surto de loucura, derrubou o corcunda Samuel que tentava fugir. Ao chegarmos à fonte principal, consegui que Brag bebesse da água milagrosa, o que foi suficiente para trazê-lo de volta aos sentidos aos poucos. Deixamos Xyntillan sob a garoa, levando conosco o candelabro de ouro recuperado e a espada de Médard, mas deixando para trás o louco Boco, que insistiu em permanecer no castelo.
Ao retornar à “Donzela do Butim”, cumpri meu último dever do dia: adornar a parede de ornamentos com o arco curto de Toco, garantindo que seu nome e seu sacrifício fossem lembrados ao lado de outros colegas, conhecidos e desconhecidos, que deram a vida por esta companhia (Outra nota do editor: deram a vida e não foram revividos ou resgatados pelos companheiros).






















