Diário de Xyntillan — Quinta sessão
Nossa companhia cresceu. Aos cinco membros ativos na última incursão (Mugluk, Lalwen Iphir, Finnian Pagemore, Watalior, Lorran Thren), juntaram-se em Tours-En-Savoy dois novos aventureiros dispostos a buscar fortuna: Thal’Shaar, uma elfa ilusionista de olhar perspicaz, e Kromak, um meio-orc bárbaro cuja presença física rivalizava com a de Mugluk. Com um total de sete companheiros, nosso seguidor clérigo e onze soldados contratados, nossa força parecia mais robusta do que nunca.
Iniciamos a jornada no dia 12 de Bilex. Após prepararmos os suprimentos, seguimos em uma longa caminhada de sete horas até nossa estalagem. Ao chegarmos, fomos recebidos pela visão do trabalho em pleno andamento, com madeira sendo coletada para os reparos, e por uma estalajadeira que já organizava o futuro estabelecimento. Ela nos informou que um pacote havia sido deixado para a companhia.
Enquanto Lorran o inspecionava cuidadosamente em busca de armadilhas, Finnian, impaciente, tomou o pacote e o abriu. Dentro, havia um cajado de madeira entalhado com runas que ninguém, nem mesmo Watalior, conseguiu decifrar. Anexado a ele, um bilhete de nosso “amigo” Blérot, o carrasco que libertamos. Ele agradecia a liberdade e mencionava ter encontrado “pessoas muito interessantes”, o que imediatamente associamos aos brutais assassinatos a machadadas reportados nos últimos dias. Na nota, ele informava que seguiria viagem para outras paragens e cenários, certamente já estando distante de Tours-En-Savoy e do alcance dos companheiros, e com isso, decidimos abandonar qualquer caçada. O peso da responsabilidade, contudo, abateu-se sobre Finnian, que lamentou as mortes que, indiretamente, causamos.
A primeira tragédia: a morte de Lalwen
Após uma noite de descanso e uma viagem chuvosa e tediosa, chegamos a Xyntillan. Ao chegar iniciamos os planejamentos de como organizar a incursão ao Castelo. Alguns debates para onde seguir, decidiu-se qual seria nosso primeiro alvo: os esqueletos arqueiros entrincheirados no estábulo. Traçamos um plano multifacetado: Lorran faria o reconhecimento; Lalwen tentaria um comando para desarmá-los; e os soldados formariam uma parede de escudos para a invasão.
Lorran esgueirou-se e confirmou a posição dos mortos-vivos; eles continuavam a usar o corpo apodrecido de um antigo aventureiro como alvo. Posicionado ao lado da porta, Lalwen projetou sua voz, ordenando que os esqueletos debandassem. A resposta foi uma chuva de flechas. Eles simplesmente o ignoraram e abriram fogo. O corpo do nosso amigo gnomo foi instantaneamente perfurado por quase uma dezena de projéteis, caindo inerte como uma almofada de alfinetes. Chocados, vimos os soldados, que testemunharam a morte fútil e brutal de Lalwen, serem tomados pelo medo e se recusarem a obedecer à ordem de Finnian para avançar. Em desordem, apenas recuperamos o corpo de nosso companheiro, fechamos a porta do estábulo e recuamos para o pátio, aturdidos.
A segunda tragédia: a besta de pedra
Abalados, decidimos prosseguir pela rota da torre norte. Lorran subiu a muralha com a escada de cordas, mas ouviu um som bizarro vindo do galpão do jardineiro: um cacarejo misturado a um balido de bode. A criatura que ele avistou era uma aberração: corpo e cabeça de galinha, mas com patas e chifres de bode. Sem os dons de Lalwen para lidar com a natureza, por mais profana que fosse, Watalior organizou uma formação de batalha cautelosa.
A comitiva subiu e avançou em bloco, com três soldados pesados na vanguarda, besteiros logo atrás e nós na reserva. Nossos primeiros golpes acertaram a criatura, mas ela resistiu com uma vitalidade sobrenatural. No contra-ataque, o horror se repetiu: com uma única bicada, a besta transformou um de nossos soldados, Mattieu, em uma estátua de pedra. O pavor se espalhou, mas o combate continuou. A vingança veio com um disparo preciso de Mugluk com seu arco curto, que perfurou o olho da criatura, derrubando-a sem vida. A morte de dois companheiros em tão pouco tempo era um fardo pesado. Thal’Shaar, profanando o corpo, arrancou os olhos da besta para si.
O butim em meio ao luto
Seguimos pelo caminho secreto, passando pelo bar e pelo berçário, até o corredor onde havíamos deixado a última incursão e onde derrotamos os zumbis que mataram um de nossos soldados. O primeiro cômodo que exploramos era um depósito, repleto de tapetes finos e antigos, mas em excelente estado. O primeiro butim da noite estava garantido. Em seguida, encontramos uma sala com uma estátua de madeira laqueada de uma dançarina de seis braços. Após Kromak inserir uma moeda em uma fenda, a estátua começou a se mover em uma dança hipnótica. Reconhecendo seu valor, o bárbaro a tomou para si, junto com diversos rolos de seda de ótima qualidade que também estavam na sala.
Atrás desta sala, encontramos uma câmara funerária com quatro jarros de barro selados e um sarcófago vertical. O cheiro de especiarias exóticas era forte. Dentro do sarcófago, uma múmia com uma máscara de ouro e um volume sob as bandagens no peito. Watalior, ao abrir um dos jarros, foi recebido por um odor insuportável de vísceras em decomposição. Com a ajuda de Thal’Shaar, selou-o novamente. Para testar a múmia, Finnian a derrubou no chão. Para nosso alívio, ela permaneceu inerte. Lorran verificou o volume e encontrou um amuleto de ouro maciço, que combinava com a máscara.
A terceira tragédia: a maldição de Watalior
A ganância falou mais alto. Watalior decidiu pilhar a máscara de ouro da múmia. No instante em que suas mãos tocaram o artefato, a cabeça ressequida da criatura se virou em sua direção e uma voz seca e antiga ecoou na sala: “Eu o amaldiçoo por três vezes, eu o amaldiçoo por três vezes, eu o amaldiçoo por três vezes.”
Diante de nossos olhos, Watalior foi pulverizado. Suas roupas, sua mochila e seus equipamentos caíram vazios no chão. Onde nosso amigo mago estava, agora restava apenas um punhado de pó dourado.
O terror tomou conta de nós. Três mortes. Sem pensar duas vezes, arrematamos todos os tesouros que podíamos carregar – a máscara, o amuleto, a estátua, os tecidos – e fugimos de Xyntillan o mais rápido que nossas pernas permitiram.
O retorno à estalagem foi lamurioso e pesado. Perdemos dois de nossos irmãos de butim e um soldado leal. Contudo, em meio ao luto, a dura verdade de nossa profissão se fez presente: a incursão, apesar de trágica, havia sido imensamente lucrativa.






















