Diário de Xyntillan — Segunda sessão
Nossa companhia cresceu, como uma pequena chama que teima em não se apagar. Aos sobreviventes da primeira incursão, juntaram-se em Tours-en-Savoy três novos rostos, cada um um mundo em si. Havia Tobias, um guerreiro robusto, uma verdadeira muralha de músculos e aço, com um olhar firme que prometia pouca conversa e muita ação. Em contraste direto, Balto, um anão de poucas palavras, mas cujo silêncio era pesado como o granito de suas montanhas natais; seus olhos pareciam ter visto eras de escuridão.
E então, havia Finnian Pagemore.
Um bardo tagarela, um pavão em meio a corvos. Seus lábios mal paravam de se mover, derramando um fluxo constante de planos, canções e opiniões. Finnian imediatamente demonstrou ter planos grandiosos para nossa base recém-conquistada, aquela casa fétida que tomamos dos bandidos. Ele se recusava a chamá-la de esconderijo; para ele, era uma “taverna” em potencial, um futuro ponto de encontro para heróis e aventureiros.
Antes mesmo de afiarmos nossas lâminas para a próxima incursão, ele já havia iniciado estranhas negociações com os camponeses locais, prometendo-lhes cerveja barata e “proteção” em troca de trabalho. A utilidade de Finnian ainda está sob avaliação. Balto e Tobias o olham com clara desconfiança, mas sua lábia, reconhecemos, é uma arma. Pode, ao menos, servir como uma distração barulhenta para os inimigos que certamente virão.
Com nossa força renovada por este aço e esta… tagarelice… decidimos retornar à propriedade amaldiçoada. Foi Finnian, com seu dom para o dramático, quem insistiu em chamar o castelo pela sua denominação tradicional: “Xyntillan”. O nome da propriedade dos Malevól, soava como um feitiço antigo ou o ranger de uma porta de cripta.
Não éramos tolos de repetir a tática anterior. A memória das gárgulas no portão principal, sua magia necromântica que animava os mortos, ainda estava fresca como um túmulo recém-aberto em nossos pesadelos. A nova estratégia era uma só: furtividade.
Evitamos os portões principais e sua aura de morte. Seguimos pela linha da muralha externa, procurando uma falha, um ponto cego. Encontramos um trecho que parecia menos vigiado, onde as sombras se acumulavam mais densamente contra a pedra úmida. Com um gancho de escalada e uma corda resistente, Finnian, apesar de seus trajes coloridos, foi o primeiro a subir para avaliar a situação.
Ele mal havia alcançado o topo quando um barulho ecoou do lado oposto do pátio — um tinido metálico, talvez o fecho de seu alaúde batendo na pedra, ou uma maldição abafada. Um som inconfundivelmente dele.
Gritos de alerta soaram no pátio, mas longe de nós. O som, talvez causado pelo próprio bardo, havia feito exatamente o que precisávamos: atraiu a atenção de parte da guarda. Aquele erro desajeitado nos deu a brecha tática de que precisávamos. Um a um, escalamos a muralha no silêncio que o bardo havia comprado.
A vantagem, contudo, durou pouco. Assim que o último de nós firmou os pés na amurada estreita, um grito soou, desta vez, bem abaixo de nós. “Intrusos! Sobre a muralha!”. Fomos descobertos.
A batalha que se seguiu foi feroz e desesperada. Não havia para onde recuar, exceto para uma queda de muitos metros. Estávamos presos em um caminho de pedra estreito, enfrentando ao menos dezessete guardas armados com bestas. Os primeiros virotes cortaram o ar, estalando contra a pedra onde estávamos há segundos.
Foi ali que nossos novos aliados provaram seu valor. Tobias se tornou a âncora, sua armadura pesada recebendo os primeiros golpes enquanto sua espada larga abria um arco mortal. Balto, lutando baixo e com a fúria de um animal encurralado, era um machado giratório que quebrava joelhos e escudos. As habilidades de Llewyn foram cruciais; suas ilusões e comandos momentâneos semearam confusão na linha inimiga, fazendo com que alguns besteiros disparassem contra as sombras erradas, dando-nos os segundos vitais de que precisávamos.
No auge do combate, um vórtice de aço e gritos, conseguimos isolar o líder deles. Ele era ágil, usava uma armadura mais leve e gritava ordens com uma voz astuta e cortante. Era Gilbert Malevól, apelidado de “Raposa”. Encurralado contra uma ameia, ele tentou um último bote, mas foi recebido pelas lâminas combinadas de Tobias e Balto. Vê-lo cair foi um golpe mais profundo do que a morte de uma dúzia de guardas. Sua morte representa um golpe significativo contra a hierarquia que controla este lugar.
Com a “Raposa” morta, os guardas restantes hesitaram. Foi o suficiente. Exaustos, feridos, e com o som de mais botas correndo em nossa direção vindo do interior do castelo, decidimos recuar. Usando nossas cordas, descemos pela muralha externa e corremos para a segurança da floresta.
A incursão foi custosa, mas inegavelmente bem-sucedida. Eliminamos um líder e enfraquecemos as defesas externas. O caminho para o interior da mansão, para os segredos que ela realmente guarda, está agora mais acessível.
Claro, mal havíamos estancado o sangue de nossos ferimentos e Finnian já começara a compor uma “lenda” sobre o ocorrido. Ele cantarolava sobre como sua distração inicial foi um “plano magistral” e como ele enfrentou a “Raposa” com a fúria de um leão. Em sua versão, que ele já ensaiava, ele é o “herói dracônico” da batalha.
É uma ficção inofensiva, por enquanto. Deixamos que ele cante. Mas uma verdade permanece: a morte de Gilbert Malevól, um membro da família, certamente causará uma reação. Não enfrentamos apenas guardas contratados; cutucamos a própria colmeia. Devemos esperar retaliação.or uma “lenda” sobre o ocorrido, na qual ele próprio é o herói dracônico da batalha. Uma ficção inofensiva, por enquanto.
A propriedade Malevól teve suas defesas enfraquecidas. A próxima incursão deve focar na mansão principal. O mistério da família e de Aristide aguarda.






















