O brilho da prata e o beijo da morte

Diário de Xyntillan — Vigésima quinta sessão

Dia 16 de Revi

Relato de Wathgar, Comandante das tropas da Companhia do Butim

O comando de uma tropa em direção ao coração de Xyntillan nunca é uma tarefa trivial, mas esta incursão carregava um peso adicional desde o primeiro passo fora da estalagem. Sob uma chuva que insistia em açoitar nossas armaduras, liderei um contingente robusto: dez combatentes pesados, dez soldados leves, seis besteiros e dez arqueiros. Ao meu lado, Brag, Brakka e Gromel formavam nossa linha de frente anã, enquanto Karl White trazia a luz da fé e Niklas vigiava as sombras. Marchávamos com um propósito renovado, mas o castelo, como sempre, parecia saber que estávamos vindo.

A jornada sob águas e raios

Nossa progressão foi arrastada por uma decisão logística necessária, mas exaustiva. Gromel insistira em levar seu bote sobre a carroça, uma ferramenta importante se quisermos explorar as águas negras do lago ao redor do castelo. Contudo, isto nos custou vinte e quatro horas de atraso sob o lamaçal da estrada. A chuva transformava o caminho em um rio de lama, mas nada nos preparou para o ninho de cobras que fervilhava no meio da trilha, bloqueando nossa passagem. O impasse, contudo, foi encerrado de forma súbita e eletrizante quando Brag ergueu sua varinha; um relâmpago, convocado por seu comando, caiu certeiro sobre o ninho, transformando o perigo em cinzas e fumaça em um piscar de olhos.

Eu havia ficado para trás resolvendo pendências cruciais e precisei cavalgar furiosamente para alcançar o grupo, que já se encontrava nos arredores do castelo. Trazia comigo, envolta em panos pesados, a Espada de Médard Malévol, objeto de uma de nossas buscas encomendadas. Eu a carregava com o cuidado de quem guarda uma relíquia, mas não era com ela que eu pretendia lutar; meu braço confiava apenas na minha própria espada bastarda de prata, a companheira de diversas batalhas que ainda não me falhou contra o sobrenatural de Xyntillan. Escondemos o bote de Gromel à beira do lago e subimos pela escada de corda na sacada lateral, após escorregar pelo barranco beirando o lago, entrando em silêncio enquanto a chuva abafava nossos rastros.

Ao cruzarmos o portal norte, fomos recebidos pela visão familiar dos aposentos que meus colegas haviam visitado, marcados pelo grande caixão central. As garrafas de água benta que haviam deixado como armadilha estavam intocadas, bom sinal.

Niklas, em sua agitação, tentou escalar a parede da sacada para uma melhor observação, mas a pedra molhada o fez escorregar. O comentário seco de Brag sobre a natureza das pedras arrancou um elogio irônico do ladino, que logo se pôs a encostar o ouvido no caixão principal. Não ouvimos nada além do tamborilar da chuva, mas a precaução era nossa melhor aliada naquele lugar onde até o silêncio parece ter dentes.

O clima de tensão foi interrompido por uma cabratriz que invadiu a varanda, lançando-se contra nossa parede de escudos. Meus companheiros desferiram golpes que encontraram apenas o ar, até que Brag a feriu e eu, com um movimento fluido de minha lâmina de prata, a parti ao meio.

Limpando o sangue da criatura, voltamos nossa atenção para o caixão central. Ao ser aberto, ele espalhou uma nuvem de pó antigo que nos fez tossir e lacrimejar, revelando apenas um caixão menor em seu interior. Dentro deste, encontramos um anel que Brag reivindicou para si.

Enquanto vasculhávamos o restante do cômodo, Niklas identificou um mecanismo oculto na lareira, algo que Brag já havia notado devido à discrepância na construção das pedras. Com a lareira apagada, o ladino acionou uma alavanca discreta, fazendo com que o fundo da estrutura se abrisse para a noite, revelando uma passagem secreta que dava para a ribanceira sobre o lago. Seguindo a sugestão estratégica de Brag, calçamos a porta de pedra para garantir que aquele caminho alternativo permanecesse disponível para nós. Karl White ainda buscou entre os móveis destruídos qualquer resquício de valor, mas o quarto já havia entregado todos os seus segredos, e o verdadeiro perigo nos aguardava na sala ao sul.

O banquete de sangue do conde

Entramos nos aposentos ao sul com uma cautela que beirava a paranoia. O luxo do lugar contrastava violentamente com a podridão que havíamos enfrentado lá fora. Depara-no-mos com o um Malévol finamente vestido. Em um gesto de honra, decidi me apresentar de forma diplomática, guardando minha espada e colocando o escudo às costas, esperando que a razão pudesse evitar o derramamento de sangue. Mal havíamos cruzado o limite da sala quando as portas se fecharam bruscamente, selando-nos lá dentro e deixando nossas tropas do lado de fora. Diante de nós, se apresentou a figura imponente de Giscard Devorré Malévol, o Conde de Xyntillan, o senhor vampiro daquelas torres.

Suas palavras eram carregadas de um veneno polido enquanto ele nos questionava sobre nossa entrada furtiva em seus domínios e nossas incursões ao longo dos meses. Tentei argumentar, que não tínhamos más intenções. Argumentei que nossa presença era motivada por rumores do abandono da propriedade, deixada por um nobre chamado Jean Guiscard malévol, e isto aguçou cobiça do grupo inicial da companhia. Outrossim, desde nossa chegada, havíamos sido atacados sem provocação por diversos residentes e criaturas no castelo. Argumentei que diversos dos familiares do próprio conde pediram-nos ajuda e auxílio. Temos empenhadas diversas buscas por pelo menos 3 parentes do Conde Malévol, mas ele apenas nos observava com uma soberba que gelava o sangue. Em uma benevolência simulada, diante de todos argumentos que apresentei contra sua acusação inicial, exigiu um preço que declarou “trivial”: a liberdade do grupo em troca de um de nossos companheiros. A tensão rompeu-se quando Niklas interrompeu meu diálogo; a paciência de Giscard evaporou instantaneamente e, em um piscar de olhos, o vampiro estava no pescoço do nosso ladino. O sangue explodiu pelas sedas da sala e o combate pacífico estava morto. O Conde era a própria morte encarnada, e ele estava com fome.

Brag, em um ato de desespero, deslizou o anel recém-encontrado no dedo e avançou com seu machado de prata, ferindo o monstro, sentindo uma aura de proteção mágica o acobertar. Em resposta, o Conde soltou Niklas e invocou uma matilha de uma dezena de lobos sobrenaturais que brotaram das próprias sombras. Somente Brag e eu possuíamos aço prateado capaz de ferir o vampiro; os outros, portanto, focaram em conter as feras que nos cercavam, de acordo com minhas sugestões. O salão de luxo transformou-se em um matadouro, onde o brilho da prata e o vermelho do sangue eram as únicas cores visíveis sob a luz bruxuleante das velas.

O que se seguiu foi o momento mais sombrio de nossa história. Após sofrer golpes consecutivos de Brag, o Conde usou seu poder mental para hipnotizar o anão. Vi com horror os olhos de meu companheiro tornarem-se opacos. Com a força que o tornava nosso melhor guerreiro, Brag virou-se contra Karl White. O machado de prata desceu em um arco devastador, atingindo o clérigo no pescoço e descendo até o quadril. Karl tombou dividido em dois, e o silêncio de sua morte foi o grito mais alto que já ouvi em Xyntillan.

O golpe final e a agulha da traição

Percebi que, se eu não agisse naquele segundo, todos seríamos devorados. Em um movimento rápido, saco uma poção azul brilhante de meu cinto e a tomo em um gole só. Senti uma aura esbranquiçada pulsar em minhas veias, estabilizando meus nervos e me concedendo destreza sobrenatural. Com uma finta que iludiu o Conde, aproximei-me e, empunhando minha espada bastarda de prata com ambas as mãos, desferi um golpe certeiro: arranquei a cabeça do vampiro com um único corte. O corpo do Conde Giscard desintegrou-se em pó instantaneamente, e com sua queda, Brag recobrou a consciência, mergulhado no horror do que havia feito.

Terminamos de abater os lobos restantes, que permaneceram mesmo com a destruição de seu mestre e, com o coração em frangalhos, derramei água benta sobre as cinzas do Conde. Recolhi um broche e um anel que pertenciam a ele, troféus amargos de uma vitória que custara a vida de Karl. Vasculhamos o quarto rapidamente, recolhendo garrafas de vinho valiosas e anotações da escrivaninha. A porta da sacada estava bloqueada, fundida à parede, forçando-nos a sair pela porta principal, onde um mecanismo curioso em forma de morcego guardava a passagem.

Ao manipular a fechadura, acabei ativando um alarme que trouxe assassinos silenciosos para o quarto. Derrotamo-nos rapidamente, mas o castelo tinha um último truque. Ao puxar a língua de metal do morcego para destravar a porta, uma agulha minúscula perfurou meu dedo. Em instantes, meus pulmões pararam e o mundo escureceu. Eu estava morto, me contaram. Foi a memória do sacrifício de companheiros passados que salvou minha vida; Brag, lembrando que eu carregava uma poção de ressurreição, administrou-a a tempo. Acordei fraco, com a alma em frangalhos, mas vivo.

Saímos de Xyntillan em silêncio, passando pelo mordomo James e saindo pelo hall de entrada. Voltamos para a “Donzela do Butim” carregando nossos feridos e o corpo partido de Karl White. O retorno foi sem eventos, mas a vitória não trouxe alívio. Brag terá que carregar o trauma de ter derrubado o próprio companheiro sob o domínio do Conde, e eu, como comandante, terei que viver com a lembrança do momento em que a vida me deixou por um instante, apenas para me devolver a um mundo onde a honra e o sangue caminham sempre de mãos dadas.

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