Diário de Xyntillan — Vigésima segunda sessão
Dia 28 de Blac
Escrito por Taobragonem Barbagrossa (Brag, o Doente), na Donzela do Butim (finalmente sob um teto seco)
Pelos deuses das profundezas, se eu tiver que escrever mais um desses relatórios, vou começar a cobrar em dobro. Meus pulmões ainda chiam como um fole velho e aquela umidade maldita do pântano no caminho só serviu para me fazer tossir catarro preto metade da viagem.
A partida (ou “onde diabos está o Wathgar?”)
Saímos da Donzela do Butim com o sol mal dando as caras. O plano era simples: entrar, pegar a Tryni e o Roos, e sair antes que o castelo resolvesse cuspir mais alguma bizarrice em cima da gente. Mas, claro, nada é simples com humanos. Wathgar, “o Honrado”, deve ter ficado polindo a armadura ou se perdendo em algum rabo de saia, porque na hora de marchar, o “líder” sumiu.
Sobrou para mim. Eu, um anão que mal aguenta o peso do próprio escudo sem sentir uma pontada nas costelas, guiando quarenta e seis soldados. Um bando de garotos assustados.
- A Tropa: 20 de infantaria leve (alvos fáceis), 10 defensores pesados (os únicos que sabem segurar um escudo), 10 arqueiros e 6 besteiros.
Olhei para a cara de Tadhg. O clérigo estava pálido, rezando para Bellenus a cada passo. Dava para ver que ele não dormia desde que o Roos foi pego. Já o Ilifir parecia uma corda de arco esticada; o elfo jurou resgatar o companheiro, mas elfo jura qualquer coisa quando está emocionado. E o Mosuc… bem, o elfo negro estava lá, nas sombras como sempre, conferindo as adagas e olhando para os meus bolsos. Eu avisei: se ele tentasse saquear o corpo de um aliado antes de ele estar frio, eu cortaria a mão dele fora.
Pelas barbas de meus ancestrais, se eu tiver que liderar outra “tropa” de idiotas debaixo de chuva, eu mesmo me tranco em uma cela de Malévol.
A viagem foi uma desgraça úmida. O velho Azimandor resolveu que a chuva é um impedimento maior do que o fato da própria filha estar apodrecendo num calabouço. Covarde. Pelo menos o caminho estava limpo — e estava limpo porque eu fiz o trabalho que os outros têm preguiça de fazer, coordenando aquela torre de guarda com Wathgar e o Sargento Karavaggio. O sujeito é honrado, até demais. Ficou no posto dele enquanto a gente se encharcava. Mas a cereja do bolo foi o tal do Falkor. O moleque brotou das sombras meia hora depois, todo sorrateiro, só depois que o Sargento sumiu de vista. Um ladino apaixonado é pior que um túnel com infiltração: não serve para nada e ainda te faz escorregar.
Um dia de viagem. Um dia inteiro de dor nas juntas. Cada vez que eu tossia, os soldados me olhavam como se eu fosse cair morto ali mesmo. Bando de inúteis. Eu minava ferro antes de eles aprenderem a limpar o próprio nariz.
A invasão e o mapa (onde o trabalho sério é feito)
Chegamos ao castelo. O grupo, como de costume, parecia uma assembleia de gnomos bêbados decidindo para onde ir. Eu bati o martelo: Salão de Entrada. É o caminho mais curto para as celas, e eu não ia ficar dando voltas naquele lugar maldito com meus pulmões chiando como um fole velho.
Organizei a infantaria pesada. Mosuc, por mais que só pense em moedas, sabe quando manter a boca fechada e a guarda alta. Fizemos uma parede de escudos de respeito. Marcha constante. Nada entra, nada sai. Enquanto isso, eu olhava para o mapa que o grupo vinha usando… uma vergonha. Aquilo não era um mapa, era um borrão de criança. Como anão e minerador, minha honra exigia correções. Cada curva, cada medida de pedra, eu ia ajustando. Um mapa errado é o primeiro passo para uma cova rasa.
O encontro e as celas
Tadhg, o clérigo, resolveu gastar saliva com o tal James, o mordomo. Depois, demos de cara com um tal de Gregor Malévol. O sujeito é um horror visual, mas educado até. Confirmaram o que eu já sabia: havia gente nas celas.
Entramos no corredor das masmorras. Enquanto eu me concentrava em mapear aquela área — que no rascunho anterior parecia um desenho de carvão feito por um cego —, os soldados iam estourando as trancas. Achamos o Roos. O coitado estava pelado como um verme recém-saído da terra. Vergonhoso para um clérigo, mas pelo menos estava vivo. Também achamos aquela jarra com o cérebro telepático que tínhamos “perdido”. Um espólio estranho, mas que já havia nos ajudado em outras ocasiões.
Mas a jovem, a Tryni? Nada.
A traição da lógica
Foi aí que o Tadhg resolveu abrir o bico. O iluminado disse que viu a Tryni ser levada por uma coisa voadora para a torre nordeste, lá no meio do lago.
Eu e o elfo negro olhamos para o mapa (o meu mapa, agora correto). A lógica de quem entende de pedra e engenharia é clara: recuar para o oeste e pegar o corredor norte. É seguro, é mapeado, é chão firme. Mas o que os “heróis” fazem? Tadhg, o moleque Falkor e o Ilifir decidiram que sabiam mais que a própria montanha. Resolveram seguir para o leste, pelo desconhecido, dividindo o grupo.
Dividir o grupo em território Malévol é como pedir para ser mastigado pelo castelo. Fiquei com a tropa e com o ranzinza do Mosuc. Minhas juntas doem, minha tosse não passa e agora tenho metade do grupo correndo para o perigo enquanto eu tento manter esses soldados em formação.
Se eu encontrar a Tryni, ela vai levar um sermão que vai fazer o sequestro dela parecer um passeio no parque. E se o Tadhg morrer, eu mesmo cobro o dízimo da alma dele por me fazer andar no escuro.
Status da Tropa: 46 homens. Com fome, molhados e assustados.
Status de Brag: precisando de uma cerveja preta e de menos idiotas ao seu redor.
A inutilidade dos “exploradores” e o segredo da pedra
Eu deveria cobrar por hora. O tempo que perdi esperando os “rebeldes” voltarem com o rabo entre as pernas daria para ter minerado uma veia de ferro inteira. Tadhg, Falkor e Ilifir foram para o leste, deram de cara com a parede (como eu avisei) e voltaram gritando para eu segurar a tropa. Segurar a tropa? Eu quase mandei a infantaria marchar por cima deles para ver se aprendem a respeitar a geometria de um anão.
Reagrupamos na Sala do Trono. Cruzei o pátio interno norte com aquele bando de soldados batendo os dentes de frio, até chegarmos no corredor da tal “Piscina das Cobras”. O mapa indicava norte, e norte nós fomos.
O “farfalhar” e a estátua
Chegamos a umas portas duplas gigantescas no final de um corredor transversal. O moleque Falkor, todo cheio de si com aquelas orelhas pontudas, disse que ouvia “farfalhar de folhas”. Achou que tínhamos chegado ao acesso da torre. Ilusão de quem vive em árvore. Assim que abrimos, o que vimos foi o Pátio Externo Norte. Chuva, lama e vento. Nada de torre.
O grupo saiu tateando no escuro como toupeiras cegas, mas meus olhos captaram algo que nenhum desses amantes de sol notaria: uma estátua. Enquanto eles olhavam para o céu procurando monstros, eu fui ver a pedra. Estava lisa demais. Demais até para um trabalho de mestre, nestas condições de exposição climática. Claramente escondia algo. Identifiquei o segredo do mecanismo num piscar de olhos — pedra não mente para quem sabe ouvir. É um dispositivo de abertura, ou um esconderijo – mas o tempo voava como vento em mina nova, e não era o momento de investigar isso.
Pegadas e meia-volta
O chão ao redor da estátua estava coberto de marcas de cascos de cabra. Grandes, fundas. O grupo ficou “apreensivo” — um jeito elegante de dizer que quase borraram as calças. Olharam para o leste, viram que não tinha caminho fácil para a torre por ali, e decidiram dar meia-volta correndo pelo mesmo lugar onde entramos.
O resultado? Estamos de volta ao ponto de partida, molhados, com o Roos pelado e a Tryni ainda sumida. E eu aqui, com um segredo de pedra descoberto e ninguém com coragem para me dar cobertura enquanto eu opero o mecanismo.
A paciência é uma virtude que eu definitivamente não trouxe comigo das montanhas.
Observação técnica: o mecanismo da estátua é de alta qualidade. Se voltarmos lá, eu abro aquela droga, com ou sem clérigo rezando no meu ouvido.
Quadros falantes e velhas cadavéricas
Eu juro que, se eu sobreviver a este lugar, vou me aposentar em uma mina de carvão sem nenhum elfo ou clérigo num raio de cinquenta quilômetros.
Depois daquela retirada patética do pátio externo — onde deixei o mecanismo da estátua para trás porque o resto do grupo se assustou com pegadas de bode — seguimos pelo corredor largo em direção ao leste. Eu estava lá atrás, com minha pena e pergaminho, garantindo que o desenho do pátio externo estivesse milimetricamente correto. Engenharia exige concentração, coisa que falta nesse bando de aventureiros.
O massacre da sala de chá
Enquanto eu conferia os ângulos da parede, o grupo chegou numa galeria de arte. Quadros que se mexem… coisa de gente rica e sem o que fazer. Ouvi um burburinho vindo da sala ao lado e nem precisei perguntar: era o Mosuc. O elfo negro tem um faro para ouro que supera o de um dragão com fome. Ele entrou na sala esperando joias e saiu de lá com vinte — eu disse vinte — desmortas nos calcanhares.
Pareciam senhoras de idade, ou o que sobrou delas. Metade cercou o assassino e a outra metade veio para cima de nós no corredor. O Tadhg finalmente serviu para algo além de reclamar da chuva e usou o poder do deus dele para expulsar as criaturas. No fim, o Mosuc e as tropas deram conta do resto, saindo apenas com uns arranhões e, provavelmente, o ego ferido por ter sido caçado por um bando de vovós apodrecidas.
Bolhas e cabeças flutuantes
Continuamos pela abertura ao norte, onde a coisa ficou ainda mais bizarra. Passamos por uma sala com uma lareira e umas bolhas roxas flutuando – coisa de mago, nem me dei ao trabalho de tocar. Minha coluna já dói o suficiente sem eu precisar ser transformada em um sapo por encostar em bolhas coloridas. Havia ossos lá também — flutuando e dançando para entreter quem passasse. Coisa de louco. Mas o que chamou a atenção foi um candelabro grande, pesado e valioso, brilhando naquele caos.
Eu, como comandante daquela tropa de infelizes, destaquei três soldados da infantaria leve para carregar o trambolho de volta à carroça. “Mantenham-se na trilha segura e não parem por nada”, eu ordenei. Pelo menos o butim pagaria o conserto das armaduras e o funeral de quem ficasse pelo caminho. Ou assim eu achei.
Continuamos para o leste, onde a coisa ficou ainda mais bizarra. Encontramos uma cabeça barbuda — só a cabeça, flutuando no ar — vidrada em um globo de vidro cheio de gente minúscula. O sujeito (ou o que sobrou dele) estava tão concentrado que nem percebeu a passagem de quarenta soldados de armadura e um anão tossindo. Aproveitamos o transe do barbudo e passamos direto.
Finalmente parece que estamos chegando perto da maldita torre. Meus pulmões estão chiando como uma caldeira furada, mas o cheiro de pedra úmida vindo do leste indica que estamos no caminho certo. Só espero que, na próxima sala, não encontremos o resto do corpo daquela cabeça, ou outra horda de senhoras mortas-vivas.
Status da tropa: exaustos e confusos por terem quase sido derrotados por “avós”.
Status de Brag: a paciência acabou. Se a próxima porta estiver trancada, eu uso a cabeça do Falkor como aríete.
O cavalo e a torre
Depois de passarmos por aquela cabeça flutuante bizarra, demos de cara com outra: a cabeça cadavérica de um cavalo. O bicho reclamava de fome. Eu, que não tenho paciência para fantasma mimado, chutei uns baldes com ossos e restos para o bicho se entreter. Funcionou. Pedra e osso são as únicas coisas que fazem sentido nesse lugar.
Chegamos à ponte da torre. Tentei garantir uma saída de emergência amarrando uma corda — o básico de qualquer incursão em profundidade —, mas a maldita corda acabou na água. Do outro lado, alguém tinha tido a mesma ideia com uma corrente. Entramos. O lugar fedia a templo e a Bafomé. Subimos. Enquanto os “heróis” iam para o terceiro andar, eu fiz o meu trabalho: coordenei a retaguarda. Mantive os 43 soldados em formação nas escadas. Se algo desse errado, o caminho de volta estaria aberto. Eu cumpri minha parte.
O tribunal dos mortos e a ganância élfica
No terceiro andar, toparam com um julgamento de desmortos liderado por um tal de Roberto Malévol. Recuaram para o quarto, onde o Mosuc — que pelo menos tem bom gosto para mulheres, já que prefere a Manoel àquela aparição da Serpentina — descobriu que o acesso à cela da Tryni estava no andar de baixo.
Me chamaram. “Brag, o especialista”. Analisei a pedra. A estrutura não mentia: havia um recuo, mas as paredes eram sólidas como o crânio de um ogro. O acesso só podia ser pela sala do julgamento. Eu voltei para garantir a retirada, pois o cheiro de desastre estava mais forte que o meu catarro.
O Tadhg, num acesso de loucura que ele chamou de coragem, se entregou ao tribunal para distrair os mortos. O plano até que funcionou: os elfos acharam a Tryni. Mas aí… ah, aí a natureza deles falou mais alto.
A queda
Ouvindo meus gritos para que batessem em retirada, o que eles fazem? Param para abrir um baú. Um baú com um aviso de “PROIBIDO MEXER”. Falkor falhou na tranca e Mosuc, com a sutileza de um martelo de guerra, rachou o baú. O gás não deu chance. Dois elfos mortos. A Tryni? Ficou lá, caída, provavelmente ainda mais morta do que os elfos.
Tadhg tentou fugir pelo caminho que eu deixei limpo. Da parte que eu fui responsável, deu certo. Mas, antes de chegarmos ao corredor do pátio interno norte, tropeçamos no horror. No meio do pátio, sob a chuva que lavava o sangue, encontramos os três soldados que mandei com o candelabro. Estavam dilacerados. Carne e metal misturados na lama, como se algo grande e faminto tivesse brincado com eles. O candelabro estava lá, caído ao lado dos corpos, sujo e inútil. Nem o ouro, nem a vida. O castelo pegou tudo de volta.
Foi logo depois desse choque que o tal Roberto Malévol apareceu do nada no corredor. Apontou o dedo para o clérigo, gritou “CULPADO” e o Tadhg sumiu no ar como fumaça de cachimbo ruim. E o pior? Tryni, a garota que fomos buscar, não estava apenas desacordada. O gás não escolhe alvo. Ela morreu ali mesmo, nos ombros de um assassino ganancioso e ao lado de um elfo apaixonado e imbecil. Três corpos empilhados num corredor escuro por causa de um baú de madeira. Saímos de lá com o rabo entre as pernas e as mãos vazias.
Tryni: morta. Sufocada pelo gás da própria “equipe de resgate”.
Mosuc: morto por burrice e um machado apressado.
Falkor: morto por ser… bem, o Falkor.
Tadhg: desaparecido por “vias legais” de um morto-vivo.
Três soldados: dilacerados no pátio, protegendo um pedaço de metal.
Roos: recuperado, mas pelado, traumatizado e o único sobrevivente de um desastre completo.
Eu mantive a estrada segura. Eu construí a torre de guarda com minhas próprias mãos. Eu mapeei o pátio. Eu garanti a saída. Mas não há engenharia no mundo que sustente um grupo que prefere um baú trancado à própria vida.
Se me virem montando outra incursão, por favor, me joguem no lago de Malévol. Pelo menos as pedras lá no fundo não tentam roubar baús de gás.
O retorno à “Donzela do Butim”
O retorno à cidade foi um funeral em marcha. Um cortejo de derrotados sob um céu que parecia rir da nossa desgraça. A chuva não parou; apenas mudou de torrencial para aquela garoa fina e persistente que entra nos ossos e faz minhas cicatrizes de mineração arderem.
Entrar na cidade com quarenta e poucos soldados em silêncio e um clérigo pelado enrolado em uma manta de sela não é exatamente a imagem de glória que eu planejei. Quando chutei as portas da Donzela do Butim, o calor da estalagem quase me ofendeu.
Azimandor estava lá. Sentado perto da lareira com uma caneca de vinho quente, os pés secos e um manto de seda. Ele nem se levantou. Só ergueu os olhos nublados e perguntou: — “E a minha Tryni? Onde está o brilho dos meus olhos? Onde está minha filha?”
Eu não tirei o elmo. Deixei a água da chuva sujar o tapete dele. — “Sua filha está morta, Azimandor,” eu disse, com a voz mais seca que o pó de uma mina exaurida. “Morta no fundo de um alçapão porque você preferiu ficar aqui, seco, enquanto a gente se afogava em lama e incompetência. Perdi três bons soldados por causa de um candelabro maldito e perdi três companheiros por causa de um baú trancado. Ela não vai voltar. Ninguém vai voltar.”
O velho empalideceu. A caneca caiu da mão dele, espalhando vinho como se fosse o sangue dos rapazes que deixei no pátio. Ele começou a gaguejar sobre “as energias da chuva”. Eu dei um passo à frente, tossindo um catarro grosso. — “Guarde suas energias. Mosuc, Falkor e Tryni estão apodrecendo juntos. Tadhg foi levado por um fantasma. Se você tivesse levantado esse seu traseiro real da cadeira, talvez o destino tivesse medo de você. Agora, só restam cinzas e luto.”
Deixei o velho desabado na cadeira e rastejei até o balcão. Manoel, a taverneira, estava com os olhos vermelhos. Ela sabia que Mosuc não estava na fila. Coloquei a adaga do elfo negro sobre o balcão e não disse nada. Não havia nada a ser dito.
Pedi uma cerveja preta. Tão preta quanto o buraco que essa incursão cavou no meu peito. A 22ª incursão não foi um resgate. Foi um funeral em massa onde eu fui o único que sobrou para contar a história e carregar o mapa de onde enterramos nossas esperanças.
Status da Missão: desastre total. Seis mortos, um desaparecido e um clérigo traumatizado.
Status de Brag: o pulmão dói, a alma pesa e eu nunca mais quero ouvir falar em candelabros.






















