O preço da misericórdia é pó

Diário de Xyntillan — Décima oitava sessão

Dia 1º de Blac

O dia amanheceu como a minha paciência: cinzento e prestes a desabar. Chovia quando partimos para Xyntillan. A comitiva estava inchada hoje: o mago bêbado Azimandor (útil quando acerta), o pequeno ladrão Lorran (mãos rápidas, bom investimento), o clérigo moralista Tadhg (cura bem, fala demais), o “honrado” Wathgar (um escudo de carne eficiente, mas dolorosamente ingênuo), além dos seguidores Ilfir e Roos. E uma tropa de soldados contratados — bucha de canhão para amaciar o que encontrarmos. Gente demais para dividir o butim.

Entramos e fomos direto ao mordomo fantasma, James. Tadhg puxou conversa e James soltou que a forma monstruosa de Gregor, que encontramos novamente conforme o combinado, é um dos “maravilhosos e criativos experimentos do Mestre Aristide”. Lorran, com sua língua afiada, conseguiu arrancar mais detalhes, mas minha atenção se desviou. Enquanto os outros ouviam histórias de fantasmas, eu avaliava o ambiente. De repente, nuvens brilhantes que encontramos outras vezes nos atacaram. Uma magiazinha irritante, indigna do fio do meu machado, mas que precisava ser dissipada. Gastei energia limpando a bagunça brilhante, enquanto Wathgar acabava com a outra.

No quarto do mordomo, a cena era patética. Um corpo defumado se contorcia na lareira. Wathgar, sempre precisando provar sua “bondade”, puxou a coisa para fora. O resultado? O corpo virou pó instantaneamente. Esforço desperdiçado. Não se salva o que já está condenado neste lugar.

Vasculhamos a mesa. Cartas paranoicas para bispos, prefeitos, gente importante. Politicagem de um fantasma louco. Tinha uma endereçada a um tal de Louis. Inútil. Enquanto eles liam cartas políticas inúteis, meus olhos buscavam valor real. Azimandor foi mais rápido e embolsou um anel valioso do casaco de James. Velho maldito. Lorran achou um baú com lençóis de linho. Levamos. O linho é bom e vende fácil. Não deixamos nada para trás.

Eu encontrei algo mais sutil: uma passagem secreta na chaminé. Eu enfiei a cabeça na fuligem e achei uma entrada. Era um defumador de presuntos. Apertado, só dava para passar engatinhando e seguia para o sul, norte, depois leste. Rotas de fuga solitárias são sempre valiosas; contudo, todos me seguiram no túnel, inferno…

O pássaro morto e a oportunidade matrimonial

Além do túnel de defumação, encontramos um cômodo ligado ao quarto de James pela porta ao norte que não havíamos aberto. O local era sinistro, aparentemente um laboratório arcano. O cheiro de ervas ainda pairava na escuridão. Glifos arcanos e pentáculos decoravam as paredes, e uma extensa variedade de itens e objetos entulhavam as prateleiras e mesas. Um grande corvo empalhado repousava sobre uma escrivaninha.

Tadhg, cujo gosto pelo macabro está começando a rivalizar com o meu, aproximou-se do corvo da mesa — que, para minha surpresa, começou a graznar informações. O pássaro morto dizia que poderia nos dar informações sobre Xyntillan, reforçando, contudo, que o lugar certamente nos levaria à perdição. Ao invés de precaução, exigimos lucro e ele correspondeu. Disse-nos que havia riquezas na sala das flores, perto da cozinha. Também tagarelou sobre o quarto da condessa a leste. “Perigoso”, disse o corvo. “Lucrativo”, ouvi eu. Fica para depois, pois todos escolheram retroceder pelos corredores que já conhecíamos.

Voltando para o salão de entrada, encontramos Tristano, o esqueleto de quatro braços, que choramingava por uma esposa. O grupo teve a ideia ridícula de armar um “encontro às cegas” com a fantasma Beatrice daqui a sete dias. Eu ri da ideia, mas dei-me conta da oportunidade. Um “casamento” espectral no pátio… a distração perfeita. Enquanto os mortos celebram, os vivos enchem os bolsos.

Seguimos a dica do corvo. Percorremos os corredores conhecidos e já explorados. Se reclamavam da minha falta de cautela antes… agora praticamente arrastei todos numa corrida até a cozinha. Ao norte, entramos no quarto das flores. A decoração era medíocre, para dizer o mínimo: tapeçarias simplórias, feitas à mão, pendiam das paredes retratando todo tipo de flor, enquanto vasos de barro e cestas suspensas acumulavam pó sobre plantas há muito mortas.

Meus olhos, contudo, ignoraram a mobília e foram direto para o canto noroeste: as lajes do piso haviam sido perturbadas. Cavamos ali e logo a pá bateu em madeira. Um caixão. Dentro, jazia o corpo inchado de uma mulher, vestida em trapos amarelados que um dia devem ter sido brancos. As mãos da morta agarravam uma bolsa de couro.

Lorran, demonstrando seu valor, surrupiou furtivamente o saco das mãos do cadáver. Excelente. Então a coisa levantou. O corpo inchado não gostou de ser roubado. Wathgar, em sua ingenuidade habitual, tentou comunicar-se com a morta-viva e quase ganhou um abraço podre em resposta. Ele foi obrigado a usar a espada, acertou em cheio, mas não foi suficiente. Eu me adiantei e terminei o serviço com uma machadada limpa no crânio. Eficiência é tudo. O guerreiro combate. Eu mato.

Continuamos a varredura, chegando a uma pequena despensa fechada. Meus sentidos aguçados perceberam a pequena corrente de ar e encontrei uma passagem secreta ao norte. O cômodo aparentava ser o escritório do gourmet, repleto de facas, cutelos e facões pendurados e dispostos pelas paredes. Segui à frente e percebi o quadro do próprio Chef em uma das paredes, mas, antes que eu pudesse sequer ponderar sobre isso, as facas ganharam vida e voaram em nossa direção, arrancando sangue de diversos de nós. Nada mortal, mas um empecilho. Tadhg e Roos se mostraram, mais uma vez, ferramentas úteis. Depois que a chuva de aço parou, recolhemos tudo. Uma das adagas era mágica. Lucro. Deixei Azimandor recolhê-la para si; afinal, ele precisa de algo para quando suas magias acabam e eu não uso lâminas pequenas assim.

O quadro do Chef, como tudo aqui neste castelo, respondeu aos nossos questionamentos evasivamente. Não percebi se ele mentia ou era apenas ignorante dos segredos de Xyntillan. Arranquei dele o saco de ervas que segurava; podem servir para algum veneno.

A ilusão da bondade

De volta à cozinha, vasculhamos o que parecia ser o forno. Havia ossadas humanas carbonizadas, algo macabro, mas certamente um castigo bem aplicado. Saindo pelo corredor, encontramos passagens familiares: ao sul a cantoria dos esqueletos e à frente a escadaria espiralada aos níveis inferior e superior. Seguimos para o corredor norte, ainda não explorado.

Um dos cômodos era um armarinho inútil de panos e toalhas, sem valor. Adiante, um alojamento de criados. Dentro, quatro zumbis nos esperavam, sentados à mesa. Desta vez Wathgar não foi tolo para tentar o colóquio, mesmo porque os zumbis imediatamente tentaram nos agredir. O combate foi rápido. Combate não, massacre. Como eu gosto de um abate. Destruí o primeiro antes que pudesse erguer os braços podres. Wathgar cortou outro ao meio. Tadhg usou seu deus por demais reluzente para espantar os outros dois. Lorran e Azimandor finalizaram os covardes que fugiram, com flechas prateadas e mísseis mágicos.

No quarto, a verdadeira piada do dia. Um jovem amarrado e amordaçado no roupeiro, vivo, chamado William, servo de alguém cujo nome não compreendi. Tadhg, ao questioná-lo, descobriu que era um refém, talvez outro butineiro. Contudo, o rapaz dizia estar lá “há décadas”. Duvidei, mas aqui em Xyntillan, nunca se sabe. Antes mesmo que mais informações fossem obtidas do rapaz, Wathgar, com os olhos marejados de pena, soltou-o. A compaixão é uma doença cara.

O garoto deu dois passos em liberdade, comemorando ter sido liberto da maldição e puf. Desfez-se em pó, assim como o da lareira. O resultado da misericórdia neste castelo é sempre cinzas, especialmente se pelas mãos de Wathgar. A única sorte foi que o montinho de poeira deixou cair um espelho de ouro. Wathgar tem mais sorte do que juízo. Se dependesse da sua “honra”, sairíamos de mãos vazias.

Finalizamos na sala de embalsamamento, último cômodo desta área que não havíamos saqueado. Dentro, havia tinas de água fervente, limpando ossadas numa sopa sinistra. Wathgar foi mexer numa mesa e quase foi cozido por água fervente. Sortudo maldito. Foi divertido de assistir.

Voltamos para a Donzela. Gemas, um espelho de ouro, linho, uma adaga mágica. O saldo foi bastante positivo desta vez, o butim valioso, apesar do peso morto que carrego nesta companhia. Eles veem aventura e heroísmo; eu vejo apenas uma lenta e perigosa transação comercial.

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