O tolo, o domador e o toque da morte

Diário de Xyntillan — Décima Quarta Sessão

O dia começou com o céu indeciso, cuspindo chuva, mostrando o sol e se escondendo atrás de nuvens, tudo ao mesmo tempo. É 3 de Bemi. Era um reflexo perfeito do caos da nossa companhia. Partimos de Tours En Savoy: Tadhg, Wathgar, eu (Lorran), Mozuc e Brag, além dos nossos seguidores, Roos e Ilifir, e a infantaria. O plano, como sempre, era invadir Xyntillan.

Mal havíamos saído e Mosuc já estava em seu frenesi habitual, gritando “Xyntillan, Xyntillan, Xyntillan!”, reclamando que estávamos perdendo tempo de butim. Ele trata este lugar como um cofre, eu o trato como uma tumba. A diferença é sutil, mas é o que me mantém vivo.

Brag, por outro lado, seguia obcecado pelo martelo mágico que o atacou. Ele só falava nisso.

Enquanto nos aproximávamos do castelo, Mosuc foi “coletar” mais rosas do jardim da Besta. E depois o ladrão sou eu… E, claro, quem ele encontra? Um monge bêbado chamado Ambrósio, que diz cuidar da adega. O monge, em vez de expulsá-lo, oferece a Mosuc um gole de bebida, que o elfo aceita sem pensar. Era uma Poção do Heroísmo. Alguns de nós têm que rastejar por tesouros; outros os recebem de bêbados. Ambrósio, no entanto, foi sensato o suficiente para avisar sobre os perigos de roubar as rosas.

Enquanto eles confraternizavam, fui investigar a porta principal, aquela perto do corredor das seteiras. Estava emperrada. Completamente travada. Eu conheço uma porta que não quer abrir quando vejo uma. Decidi não forçar. Minha regra de ouro: se uma porta em Xyntillan não cede fácil, há uma armadilha esperando atrás dela. Recuei.

Voltei e encontrei Brag tentando negociar com o martelo mágico. Ele colocou uma adaga na bigorna, e o martelo começou a trabalhar na lâmina sozinho. O anão, então, ofereceu um “emprego” ao martelo. O martelo, obviamente, não respondeu.

Foi Tadhg quem resolveu meu problema. Ele se aproximou de Mosuc e Ambrósio, prometeu uma cerveja ao monge bêbado, e Ambrósio, com a força dos ébrios, simplesmente foi até a porta que eu havia abandonado, deu um empurrão e a abriu.

Senti meu rosto queimar. Meu mapa estava errado. A porta não era uma armadilha, era apenas uma porta emperrada que se abria para um corredor que eu não havia mapeado corretamente. Mapeamentos assim não são fáceis, e este erro quase nos custou uma rota.

Com a porta aberta, Mosuc disparou. “Sul, sul, sul!”, ele gritava, abrindo portas sem qualquer cuidado, como um touro numa loja de porcelana. Felizmente, Wathgar tem algum senso tático. Ele se posicionou à frente do grupo, organizando nossos soldados pesados em uma parede de escudos.

Enteiados e envenenados

O corredor dobrando para leste estava cheio de teias. Brag testou as teias com uma tocha emprestada de Wathgar e conseguiram queimá-las, sem dificuldades. Seguimos. Wathgar abriu a porta seguinte. A sala além… estava infestada. Um mar de aranhas. Isso nunca é um bom sinal. Wathgar, com seus olhos de guerreiro, conseguiu notar um ninho no meio do caos, e no ninho, o brilho de oito pérolas “bonitas e brilhosas”.

O tesouro estava ali, mas Brag, o bravo anão, deu meia-volta e fugiu, gritando que tinha medo de aranhas e que ia pedir ao martelo para afiar seu machado. Mosuc resmungou que precisávamos de um ancinho de quatro metros. Lembrei a ele que tínhamos um corpo com uma vara de três metros em algum lugar. Wathgar sugeriu tochas, mas o fogo não as afastou o suficiente, e corríamos o risco de destruir as pérolas.

Eu decidi tentar. Talvez eu pudesse usar minha agilidade para… e tropecei. Simplesmente tropecei e caí dentro da sala. Em um segundo, meu corpo estava coberto por elas, um tapete vivo de pernas finas e olhos múltiplos. Aranhas na minha boca, ouvidos e narinas. Antes que pudessem picar, Wathgar me agarrou e me puxou para fora. Tadhg, talvez inspirado pela minha estupidez, tentou o mesmo. Caiu, foi picado e envenenado, e Wathgar teve que resgatá-lo também.

Então Wathgar, “o Honrado”, decidiu que a sutileza era inútil. Ele simplesmente correu. Correu para dentro do ninho, ignorando as centenas de aranhas que subiam por suas pernas e armadura. Ele passou longos segundos lá dentro, cada segundo uma agonia para nós que assistíamos. Ele pegou as pérolas, correu de volta e… nem uma única picada. Tadhg, se recuperando do veneno, começou a chamá-lo de “O Domador das Aranhas”. Eu chamo isso de sorte absurda. Mas tínhamos as pérolas.

A hoste fantasmagórica

Seguimos explorando, eu ainda tremendo. Abri a próxima porta. Um quarto. Um baú com uma inscrição ridícula: “Contém tesouro tipo 6”. E um fantasma. Não um fantasma qualquer, mas um Malevól, cercado por um séquito de dezessete fantasmas sem cabeça.

“Um grupo de ladrões entrando na casa da minha família!”, ele gritou.

Tentei a diplomacia. Minha especialidade. “Não somos ladrões, não!”, eu disse. “Bem, só um aqui tem essa má fama… e por coincidência sou eu. Mas somos um grupo de, ahn, mapeadores!?”

Não funcionou. Ele atacou.

O caos irrompeu. Tadhg e Roos começaram a entoar suas preces, tentando expulsar os mortos. A fé de Tadhg era forte; ele baniu seis dos dezessete sem cabeça, mas o Malevól principal permaneceu, seus olhos queimando em minha direção.

Ele ignorou a parede de escudos de Wathgar. Ele veio direto para mim.

Seu toque não queimou. Não congelou. Foi pior. Foi um vácuo. Senti minha energia vital sendo sugada, minha juventude arrancada de mim. Minhas pernas fraquejaram, minha pele pareceu secar e meu cabelo, juro, pareceu ficar mais ralo. Tornei-me uma pequena casca do que era, frágil, doente e velho.

Consegui me arrastar para fora da sala, gritando por Roos. Tadhg, vendo o que aconteceu comigo e percebendo que Wathgar não podia ferir o espectro, jogou sua maça de prata e água benta para o guerreiro. Mas Wathgar, acostumado com sua bastarda, não estava preparado para a arma de um clérigo. Ele a derrubou. A maça bateu no chão de pedra com um baque surdo, inútil.

Naquele instante, dois de nossos soldados, pegos pelos fantasmas, caíram mortos, suas vidas drenadas como a minha quase foi. Tadhg entregou uma garrafa de água benta a outro soldado, que a arremessou, estilhaçando-a contra a parede e ferindo as criaturas etéreas. Mas com Wathgar desarmado de prata e eu morrendo no corredor, a luta estava perdida. Recuamos.

Felizmente, os fantasmas não nos seguiram.

Estávamos quebrados, mas não terminamos. Vasculhamos uma sala próxima, cheia de decorações militares, e encontramos alguns tesouros e uma garrafa. Em outra sala, arrastamos uma estátua e encontramos a descoberta mais bizarra do dia: um cérebro em um jarro. Provavelmente fruto dos experimentos de Aristides Malevól.

E o cérebro falou conosco, telepaticamente. Tadhg, é claro, ficou fascinado. Ele pegou o jarro e saiu do castelo “conversando” animadamente com ele.

Retornamos para Tours En Savoy. Dois homens a menos, minha vitalidade roubada, mas com oito pérolas, um cérebro falante e a certeza de que eu odeio fantasmas.

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