Uma companhia renovada
Diário de Xyntillan — Sexta sessão
No dia 18 de Biex, a Companhia do Butim partiu para sua sexta incursão a Xyntillan. Aos veteranos Mugluk, Lorran Thren, Thal’Shaar e o imprevisível Balto, juntaram-se três novos aventureiros: Mosuc, um elfo negro de presença enigmática; Watford, um guerreiro arqueiro de modos objetivos; e Tadhg Eberhard, um monge copista e clérigo de Bellenos. Acompanhados por uma comitiva de homens armados, a força de exploração parecia mais robusta do que nunca.
Sua estalagem, agora batizada de “A Donzela do Butim”, já não era um mero refúgio, mas um bastião de esperança em meio ao ermo. Pilhas de madeira, fruto do trabalho árduo dos lenhadores, prometiam paredes mais fortes e um teto seguro. Era um lugar que começava a ter cheiro de lar. Após uma noite de descanso, a Companhia marchou em direção ao seu destino. A viagem foi uma provação silenciosa sob uma chuva fina e incessante, com a silhueta de Xyntillan crescendo no horizonte, não como uma construção, mas como uma ferida na paisagem.
O riso da pedra
Desta vez, a Companhia decidiu tentar a entrada principal, o mesmo portão flanqueado pelas gárgulas que já haviam confrontado alguns dos membros em sua primeira incursão. Com cautela, Tadhg usou uma prece para detectar disposições e confirmou o que já suspeitavam: as estátuas emanavam uma aura maligna. Watford tentou um contato verbal, sem resposta.
Foi Balto quem quebrou o feitiço da inação. Num ato de fúria bárbara contra o silêncio agourento, ele avançou com uma picareta, e o som do ferro contra a pedra ecoou como um trovão. As estátuas, para surpresa de todos, cederam como rocha comum, despedaçando-se sem reagir. Contudo, quando Watford empurrou os pesados portões, a cabeça decapitada de uma das gárgulas, caída ao chão, abriu sua boca de pedra e soltou uma gargalhada seca e sinistra, um som sem pulmões que prometia os horrores que aguardavam lá dentro.
O mordomo fantasma e o caixão vazio
O salão de entrada era uma caverna de escuridão e poeira. A luz das lanternas dançava sobre um abandono de séculos. No centro da vasta penumbra, uma figura espectral soluçava, um poço de desespero etéreo. Era James, o mordomo. Tadhg aproximou-se, não como um guerreiro, mas como um confessor, e suas palavras gentis conseguiram penetrar na névoa de dor do fantasma. Disfarçando a cobiça do grupo sob o manto de uma busca por relíquias sagradas, o monge o inquiriu sobre salas seguras, marcadas com cruzes. A desconfiança nos olhos do fantasma foi aplacada pela aparente devoção de Tadhg, e James concordou em guiá-los.
O mordomo os conduziu por corredores que pareciam suspirar a cada passo. Passaram por uma galeria onde quatro retratos observavam com olhos que continham mais do que tinta. Roberto, o juiz, cujo olhar parecia pesar suas almas; Serpentina, a doce, com um sorriso que prometia veneno; Merléric, o fundador, austero e fantasmagórico; e Sibylle, a viúva. O olhar dela encontrou o de Mugluk, e por um instante, houve um reconhecimento mudo. O meio-orc mostrou-lhe discretamente a poção que ela lhe dera, um segredo compartilhado entre os vivos e os mortos. James advertiu o grupo a apenas interagir com quem realmente desejassem encontrar.
No quarto de Samuel, após Mosuc verificar que a porta estava segura, encontraram um caixão de madeira empoeirado e nove cruzes de prata.
Oito foram ensacadas. O caixão, ao ser erguido, mostrou-se leve e vazio. A tensão era palpável. Com Watford preparando a espada e Tadhg erguendo o escudo, a tampa foi forçada. No instante em que uma fresta de centímetros se abriu, um hálito gélido e antinatural, vindo de um pulmão há muito apodrecido, soprou de dentro do caixão. As cruzes de prata, com um silvo agudo, desintegraram-se em cinzas negras, e o som pesado de correntes sendo arrastadas ecoou do corredor, o que deu ao grupo a nítida impressão de que algo sinistro havia sido libertado.
A armadilha dantesca
De volta ao salão dos retratos, o impossível se manifestou: uma porta na parede oeste que antes não existia agora se materializava, um erro na arquitetura da realidade. Um forte cheiro de podridão e vapores nauseantes escorriam por baixo dela, uma promessa de horrores contidos. A hesitação pesou no ar. Ao sul, uma janela na parede do castelo, uma fresta mesquinha e fechada com vidro grosseiro e transparente, mal permitia vislumbrar o exterior.
Foi Watford, com seu pragmatismo impaciente, quem quebrou o impasse. Em vez de arriscar a porta desconhecida, ele envolveu o punho da manopla em um pano e, com um golpe seco, estilhaçou o vidro. O som agudo ecoou como uma profanação no silêncio do castelo. Debruçando-se sobre o parapeito, sua visão tática mapeou o terreno lá fora: a leste, a bocarra de pedra da entrada principal onde enfrentamos as gárgulas; logo abaixo, um talude íngreme de terra que circundava a muralha em direção ao oeste; e mais abaixo, o rio, uma serpente escura de água margeando a fortaleza.
Com o exterior mapeado, a atenção do grupo se voltou para o interior. A porta misteriosa a oeste foi aberta com cautela, revelando ser um cômodo pequeno e fétido que servia de latrina, com mais duas portas do lado oposto. O cheiro de podridão parecia vir de além delas, e não deste primeiro aposento.
A cena para além das portas da latrina era um pesadelo saído das cozinhas de uma bruxa. Um caldeirão imenso borbulhava lentamente no centro da câmara, e dentro dele, cozido até os ossos, jazia o corpo pálido de uma sereia. O vapor que subia carregava um cheiro adocicado e nauseante de carne e especiarias exóticas. Ao fundo da sala, contra a parede leste, um amontoado caótico de ossadas humanas estava empilhado, como os restos descartados de um banquete macabro.
O instinto prevaleceu sobre o horror. Watford e Tadhg se esgueiraram pelas laterais da sala, com as armas em punho, mantendo a maior distância possível do caldeirão e de sua vítima profana. O restante do grupo os seguiu em uma formação tensa, cada um pronto para a batalha, enquanto Mosuc e Lorran, fiéis à sua natureza, dissolveram-se nas sombras que se agarravam aos cantos da sala, tornando-se predadores à espera.
De sobressalto, a ameaça se revelou. Não vinha do caldeirão, mas do fundo. A parede de ossos… ondulou. Com um som úmido e repugnante, a pilha inteira começou a se mover, não por si mesma, mas suspensa dentro de uma massa translúcida e disforme que se descolava da parede. Uma parede de gosma de três metros de altura, largura e profundidade se ergueu, um cubo gelatinoso perfeito, como a escória fervida de ossos antigos. Dentro de sua forma trêmula, ossos humanos flutuavam em agonia silenciosa, ao lado de moedas de ouro que brilhavam como dentes de metal, e no seu centro, um ponto transparente e brilhante pulsava com uma luz fraca.
Com uma velocidade antinatural, o cubo avançou. Seu primeiro golpe foi um impacto devastador contra Watford. O guerreiro foi atirado para o lado como um boneco, seu corpo convulsionando antes de ficar terrivelmente imóvel, paralisado por um toque necrótico. O inferno desabou. Flechas sibilavam, espadas e machados cortavam o ar, mas encontravam uma resistência disforme e nauseante. A batalha era sangrenta. Mugluk, com um rugido de desafio, avançou e agarrou o corpo de Watford, arrastando o amigo paralisado para longe da ameaça enquanto Tadhg, com preces nos lábios, se apressava para aplicar as ataduras nas feridas abertas. Mozuc, em um ataque audacioso, também foi atingido pela criatura e caiu no chão de pedra.
Quando a esperança começava a vacilar, Thal’Shaar ergueu as mãos, e uma onda de poder místico emanou dela. A criatura estremeceu, sua massa gelatinosa ondulando em confusão, aturdida e imobilizada por um instante precioso. Mas a pausa foi breve. O cubo voltou a agir, sua fúria cega e faminta. Ele se abateu sobre um dos combatentes contratados, Vinichar, cujo grito foi abruptamente silenciado. Em seguida, avançou sobre Balto, engolindo-o inteiro, seu corpo desaparecendo dentro da massa trêmula.
Foi a força do meio-orc Mugluk que se tornou a salvação. Agarrando o braço de Balto que ainda estava visível, Mugluk fincou os pés no chão e puxou com um grito gutural que fez tremer as paredes. Músculos se retesaram contra a sucção nojenta, e em um esforço hercúleo, ele arrancou Balto de volta das entranhas do monstro.
A criatura, ferida e desequilibrada, foi finalmente dominada por uma torrente de golpes e flechas, colapsando em uma poça trêmula e fétida. A vitória teve um custo, mas os membros da Companhia estavam vivos. Em meio aos restos, o ouro prometido foi encontrado, junto com o ponto brilhante, que caiu no chão com um leve tinido, revelando-se um globo de vidro perfeitamente transparente.
Mosuc, sorrateiro, foi o primeiro a pegá-lo. Contudo, no instante em que seus dedos tocaram a superfície fria da bola de cristal, sua consciência foi arrancada de seu corpo. Sua visão foi atirada para um abismo de tempo e poeira, e seus sentidos foram tomados por uma presença arcana, anciã, maligna e morta-viva, que, de seu trono em algum lugar distante, olhou de volta para ele.
Reconhecimento e uma retirada sangrenta
Abalados, decidiram mapear o exterior. A descida pelo barranco foi tranquila, devido ao preparo de pontos de apoio e cordas, e a caminhada ao redor da muralha revelou a escala ciclópica de Xyntillan. Avistaram uma torre solitária, circundada pelo lago que origina o rio margeante do castelo, ligada por uma ponte frágil sobre o abismo. Ainda, no paredão do castelo, duas câmaras de destaque com uma varanda foram percebidas, alcançáveis: um novo desafio para um novo dia.
A floresta, que na ida parecia apenas melancólica, agora se mostrava hostil, suas sombras se aprofundando com o cair da tarde. Foi nesse lusco-fusco traiçoeiro que a maldição de Xyntillan nos alcançou uma última vez.
Das copas das árvores e de trás de troncos antigos, elas desceram. Eram cinco. Aranhas demoníacas, aberrações de quitina negra e pernas longas e afiadas como adagas. O ataque foi uma explosão de violência silenciosa e letal. Antes que pudéssemos formar uma linha de defesa, a tragédia se abateu sobre nossa retaguarda. Guiscard foi o primeiro a cair, seu grito sufocado por uma teia pegajosa que o envolveu e o puxou para a escuridão. Radegund, ao se virar para ajudar o companheiro, foi cercado por duas das criaturas, suas presas venenosas encontrando a carne em uma fúria de golpes rápidos e fatais. Dois bons homens, perdidos em um piscar de olhos.
O que se seguiu foi um embate desesperado. O ar se encheu com o som de aço contra carapaças, o baque surdo dos machados de Mugluk e Balto, e o zunido das flechas. A luta foi difícil, um redemoinho de pernas afiadas e mandíbulas gotejantes em meio à penumbra da floresta. Uma a uma, as criaturas foram caindo sob a fúria da nossa vingança, até que apenas uma restou. Com a batalha virando, a última aranha tentou fugir, desaparecendo como um vulto negro entre as árvores. Mas ela não foi longe. Em meio ao caos, Watford permaneceu calmo. Ele ergueu seu arco longo composto e, com um único tiro certeiro, silenciou a criatura antes que ela pudesse escapar.
A floresta mergulhou novamente no silêncio, quebrado apenas pela nossa respiração ofegante e pelo peso de mais duas perdas. Mal haviam se recuperado do combate e foram forçados a se esconder de criaturas que pareciam águias gigantes, mas que deixavam rastros de relâmpagos de suas caudas. Elas passaram, ignorando-os. Não se sabe se por eficácia no fugidio esconderijo ou se por insignificância.
A Companhia retornou à Donzela do Butim exausta, com a alma pesada pelas perdas. Estavam mais ricos em tesouros, mas a um custo terrível em homens e em paz de espírito. O castelo havia cobrado seu tributo em sangue.






















