Segredos e sacrifícios

Diário de Xyntillan — Quarta sessão

Após dias de repouso, onde as frutas curativas de Iphir lentamente remendaram nossos corpos moídos e feridos, nos sentimos prontos para retornar. A Companhia estava completa: Mugluk, nosso pilar de força; Lalwen Iphir, cuja sabedoria nos guiava; Finnian, com suas histórias e inspirações questionáveis; Watalior, com seus olhos arcanos; e Lorran, nossa sombra ágil. A perda de um dos nossos homens na última incursão pesava sobre nós, mas a determinação era maior.

Partimos antes mesmo do sol raiar, às cinco da manhã. A jornada foi longa e silenciosa, cada um de nós imerso em seus próprios pensamentos sobre os horrores que nos aguardavam. Chegamos aos pés de Xyntillan às dezesseis horas, e o castelo nos recebeu com um silêncio sepulcral, uma calmaria que arrepiava mais do que qualquer grito.

Deixamos um soldado para trás com nossa carroça e o burro, e escalamos as muralhas ao norte, perto da torre que flanqueava o portão do pátio. Entramos pela já conhecida sala de materiais de jardinagem, mas algo havia mudado. Onde antes havia apenas entulho, agora flutuava uma aparição incorpórea que pulsava com uma luz vermelha e agourenta. Iphir, corajoso como sempre, tentou estabelecer contato, mas o espectro permaneceu mudo, sua presença um presságio silencioso. Decidimos ignorá-lo por ora e seguimos pelo túnel que Mugluk descobrira, um atalho para as entranhas do castelo.

O bar fantasmagórico, um espaço de uns 20 por 30 pés, estava agora vazio; os espíritos beberrões haviam partido. Seguimos para o berçário, um quadrado de 30 por 30 pés, igualmente silencioso. Foi então que ouvimos. Gritos de pavor, vindos da direção de onde havíamos entrado.

Lorran, movendo-se como um sussurro, esgueirou-se de volta e o que viu o fez gelar. O fantasma vermelho atacava um de nossos soldados. O pobre homem golpeava com sua espada, mas a lâmina trespassava a aparição como se fosse neblina, enquanto garras espectrais rasgavam sua carne. Lorran nos chamou, e corremos de volta.

O caos estava instalado. Lorran se posicionou atrás do fantasma enquanto os outros chegavam. Nossas armas eram inúteis. Foi nosso clérigo quem nos salvou; com uma prece, uma bênção divina nos envolveu, e de repente, nossas armas pareceram mais pesadas, mais reais. O aço agora encontrava resistência. Encorajados, atacamos com fúria, apesar das tentativas fúteis de Finnian de nos inspirar com uma canção desafinada. Iphir invocou pedras de funda encantadas, e após uma saraivada de golpes de nossos homens e uma pedrada mágica certeira, o fantasma gritou e mergulhou através do chão, desaparecendo.

Com a ameaça afastada, retornamos ao berçário. Nosso primeiro objetivo era recuperar as lanças, a chave para libertar os fantasmas do bar. Fomos até a sala onde enfrentamos os zumbis. A cabeça flutuante ainda estava lá, gritando impropérios, nos acusando de matar seus “serviçais”. Finnian, surpreendentemente, iniciou um diálogo. A cabeça, embora irritada, mostrou-se racional. Sua única incumbência, dada por alguém da família Malevól, era manter as lanças limpas. Finnian tentou blefar, dizendo que vínhamos a mando da família, mas a cabeça não se deixou enganar. Cansada de nós, ela apenas clamou por sua integridade e nos permitiu levar as armas. Formamos uma corrente humana e, por vinte minutos, movemos as noventa e nove lanças para o topo da muralha, do lado de fora da sala do jardineiro.

Seguimos para o norte pelo corredor, que se abria em um salão amplo à leste. A sala estava coberta por lençóis brancos. No centro, uma pequena nuvem etérea flutuava, e dentro dela, uma garrafa com formato de coração. Dezenas de mãos corpóreas se moviam pela sala pelos seus dedos, como aranhas medonhas feitas de carne, tentando agarrar o frasco. Mugluk, sem hesitar, lançou um laço. A corda atravessou a nuvem, mas prendeu a garrafa. A nuvem se dissipou com um suspiro, e as mãos se viraram para Mugluk. Batemos em retirada, fechando a porta e deixando as mãos arranhando inofensivamente a madeira. A garrafa que recuperamos era roxa, com um líquido misterioso e uma rolha.

No outro lado, um salão e duas portas. Atrás da primeira, um de nossos homens encontrou um verdugo acorrentado, um homem chamado Blérot, rodeado por lenha e restos de corpos. Ele implorou por ajuda, prometendo descontar seus impulsos nas “árvores falantes da floresta”. Watalior, cauteloso, pediu que Mugluk pegasse seu machado antes de o libertarmos, e ele concordou. Iphir o convenceu de nossas boas intenções, Mugluk quebrou suas correntes e lhe devolvemos a arma. Blérot nos contou que o castelo era maior por dentro do que por fora, abrigando uma floresta inteira, e partiu para sua vingança contra a flora local, levando um apito que Mugluk lhe deu para sinalizar caso precisasse.

A outra porta revelou uma sala de 20×30 pés. Cinco figuras corcundas, vestidas em couro simples, estavam reunidas ao redor de três totens helicoidais. Dois deles faiscavam, trocando raios de energia. Eles nos cumprimentaram amigavelmente, explicando que tentavam consertar seus “geradores” para “acordar o Bruno”, uma criatura feita de partes de corpos no andar de cima, um experimento de Aristide Malevól. Watalior percebeu que a falha era a ausência de uma varinha mágica. Usando sua magia, sussurrou para Lorran se esconder e pegar a varinha de relâmpagos. Finnian tentou distraí-los, e após um momento de hesitação, Lorran conseguiu surrupiar o artefato. Saímos rapidamente.

O corredor nos levou mais ao norte. Uma porta ao sul revelou um laboratório escuro, com prateleiras repletas de potes de vidro contendo olhos, cérebros e mãos. Um barril continha uma substância grossa e cor de pele. Watalior coletou uma amostra, e Finnian, por algum motivo, pegou mais potes contendo olhos.

No fim do corredor, uma porta a oeste. Lá dentro, o fantasma translúcido de uma velha, Sybile Malevól, a viúva, mexia um caldeirão que brilhava, mas parecia vazio. Ela nos ofereceu uma “poção para fugir de encrencas”, enchendo duas garrafas a pedido de Finnian com um líquido ectoplasmático. Na sala, caixas de papéis revelaram documentos de enormes compras de chumbo, realizadas através do apotecário de Tours-En-Savoy. Finnian teorizou sobre a Pedra Filosofal, mas a ligação com os rumores de sonegação fiscal parecia mais provável. Sybile disse que eram “assuntos de família” e, com desprezo, chamou Aristide de “aquele velho ZUMBI desgraçado”.

Retornávamos pelo caminho que fizemos quando, no corredor ao leste, após o berçário, fomos emboscados. Oito homens velhos, de vestes finas, porém deterioradas, nos atacaram com grandes adagas. Eram mortos-vivos. Watalior ordenou que a infantaria pesada formasse uma linha. O corredor se tornou um moedor de carne. Bestas dispararam, e dois zumbis caíram. A cabeça de um terceiro explodiu com a magia de Iphir. Finnian, por um instante, pensou em arremessar um coquetel molotov, mas a sanidade prevaleceu ao perceber que incendiaria a todos nós. Mugluk avançou, sua maça esmagando ossos. A luta foi brutal. Jean Pilon, um de nossos valorosos soldados, pereceu sob as lâminas dos mortos. Mas, no fim, a vitória foi nossa.

O adiantado da hora nos forçou a recuar. A retirada foi pesada, carregando o corpo de nosso companheiro caído. Recolhemos as noventa e nove lanças que havíamos empilhado na muralha. Chegamos à nossa estalagem às quatro da manhã, exaustos, mas com a convicção de que havíamos arrancado mais segredos e tesouros das entranhas de Xyntillan.

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