Diário de Xyntillan — Décima Sétima sessão
Dia 25 de Bemi.
A doença do Butim
O dia não começou bem para a Companhia do Butim. Alguém batia na porta do quarto de Tadhg, o clérigo de Bellenus, com pressa. Era Lorran, o nosso ladino de meio metro de estatura.
Tadhg abriu a porta e viu o pequenino com o cenho franzido, bochechas infladas, braços cruzados e seu pé peludo batendo irritantemente contra o assoalho de madeira do segundo andar da Taverna Donzela do Butim.
— Acorde, Tadhg, você tem que fazer alguma coisa! Eles estão passando mal no salão!
— Chame o Roos e me encontre lá, já estou descendo! — Tadhg encostou a porta, afivelou o cinto, ajeitou as calças e escondeu o livro que tinha sido alvo da sua atenção por boa parte da manhã. Um livro ricamente ilustrado, com contos deveras inovadores para a época, que ele havia resgatado debaixo da cama de um cadáver gordo de Xyntillan.
O salão da Donzela exalava um cheiro forte e ácido, picante e adocicado. Os membros da Companhia do Butim ou estavam palidamente rendidos sobre as cadeiras ao redor de mesas redondas, ou se escoravam nas pilastras em algum canto buscando privacidade para encherem seus baldes.
Lorran estava mais indignado, como de costume, do que aflito, e, de cima do balcão principal da taverna, dava ordens e apontava seus dedos indicando quais baldes deveriam ser trocados pelos funcionários da Donzela.
O taverneiro Raoul junto de sua esposa, Bertha, a cozinheira, iam e vinham das salas de banho com baldes e panos. Enquanto Aveline, a jovem garçonete e filha do casal, distribuía os recursos que eram direcionados pela voluptuosa Muriel, a simpática, e Roxane, a cortesã.
Vez ou outra a porta se abria e Turold, o anão que chefiava a guarda na Donzela, entrava a passos firmes junto do pedreiro Durand, trazendo pilhas de palha e feno que eram espalhadas pelo chão do salão. Pelo menos nas partes em que isso era possível.
A Donzela do Butim enfrentava um verdadeiro caos. Bertoldo havia saído com a desculpa de colher ervas medicinais.
Mugluk, sentado em uma cadeira, quase cinza de tão pálido, apenas deitava a cabeça para o lado, sobre o ombro, e deixava vir tudo o que não lhe pertencia, enchendo o balde com uma substância verde e viscosa.
Brag tentava resmungar, mas os acessos de raiva pioravam a resposta do seu estômago que cortava seus berros como uma baforada de dragão negro, respingando nas paredes.
Wathgar se apoiava contra uma pilastra e limpava a barba com um pano, parecia um dos menos afetados, mas, ainda assim, empalideceu como os outros.
Tryni olhava para o pai, Azimandor, compadecida. Ora sua personalidade serelepe deixava escapar uma risadinha curta, mas logo sua face se fechava em preocupação e ela limpava a boca do velho.
Azimandor soluçava, ria, babava um pouco, estalava os dedos criando um belo facho luminoso e cedia às vontades do seu corpo que teimava em expulsar mais daquela substância desagradável. Assim que terminava, Azimandor bebia um gole generoso, soluçava, cantarolava uma canção antiga sobre magos azuis, desmaiava por alguns segundos e acordava para fazer tudo de novo, como em um looping caótico e alcoólico. Pelo menos, dessa vez, ele seguia vestido, mesmo que sua tûnica azul e sua longa barba amarela estivessem inteiramente manchadas e pegajosas. Ele nem ligava, apenas resmungava, aos soluços, quando seu odre parecia estar vazio. O que, a bem da verdade, estivera há algumas horas, mas Azimandor já se embriagava com o vento.
Debaixo de uma mesa, em um canto próximo da lareira, era possível ver uma das pernas de Gibbs, o Toco (se elas ainda existissem, é claro). As bandagens que ele normalmente utilizava nos seus membros amputados tinham sido removidas e havia uma substância pastosa, como um emplastro de ervas, cobrindo seus cotocos. Mas ele não estava debaixo da mesa de graça. Muito doente para se movimentar, Toco precisou usar o banheiro ali mesmo, no salão da Donzela. Sem pernas para correr, a solução foi se esconder, fazer no chão e usar suas bandagens para tentar limpar a troça, o que só piorou a situação. Toco chorava, nervoso, enquanto tentava limpar o que havia feito, escondido como um cão sem dono, arrependido, com as suas orelhas tapadas pelo gorro. Nem o cachorro de Lorran arriscava enfrentar o bafo fétido que o Salão da Donzela exalava.
Quando Roos e Tadhg chegaram, Lorran levantou os braços em protesto: — Aqui só tem maluco! Eu devia me esconder! Mas se eu me esconder é pior! Algo me diz pra matar todos eles e acabar com esse cheiro, mas não vou ceder, não vou, resolvam isso!
O pequenino estava vermelho, a voz fina e estridente já ameaçando a rouquidão, e contrariando sua gentileza habitual, arrastava uma espada maior que ele presa pelo cinto. Ele olhava para o cabo da espada e sua expressão ia da água benta de Tadhg até o veneno de Mozuc, sem avisar.
De uma escada surgiram, então, Mozuc, o elfo negro assassino, sem camisa e sem as botas. Mas sim, ele estava de calças. Logo atrás, prendendo o cabelo e cofiando a barba, risonha, a taverneira Manoel descia.
Ao se deparar com a zona, Mozuc abriu os braços, soltou uma das suas gargalhadas que ecoavam pelo salão, e disse: — Aha! Foram para a festa sem mim?
A Manoel apenas vislumbrou o caos e correu para entrar na dança que tentava controlar aquele cenário. Mozuc, escorado no final da escada sentia os cheiros como um cão que fareja rastros e, braços cruzados, ria cada vez mais alto. Até que seus olhos vermelhos se fixaram em Toco: — Seu maldito imbecil! Por acaso te amputaram, também, a cabeça e nós não vimos?! Esse idiota cobriu seus cotocos com a minha receita para acelerar o crescimento das rosas que roubei de Xyntillan! Deve ser por isso que está todo cagado! — Os olhos vermelhos de Mozuc brilhavam como se fossem raios, e sua face estava fechada em um misto de raiva e incredulidade.
— Meu deus, aqui só tem gente louca! — Lorran olhava para a cena e lembrava de uma das incursões por Xyntillan na qual quase perdeu a vida após o toque de um espectro. Ele se questionava se não teria sido melhor permanecer em Xyntillan, como um fantasma, pois malucos, por malucos, pelo menos fantasmas não fediam daquele jeito…
Tadhg e Roos ajudavam a equipe da taverna com panos úmidos, um incensário e respingavam água benta sobre os enfermos.
Então a porta da Donzela foi aberta e a brisa do bosque, misturada com flores silvestres fez arrefecer a caatinga. Um jovem homem, de belos cabelos castanhos e traços suaves, envolto em uma capa cinzenta e vestes camponesas de cores terrosas, entrou no salão. Ele tinha dois ramos de hortelã presos na cabeça e alguns galhos floridos sobre os ombros.
— Olá, um bardo falastrão me falou da Companhia do Butim. Vim oferecer meus humildes serviços. Sou Maruk Galho Florido, druída de Cernunnos, ao seu dispor. — Ao completar sua saudação com um meneio, Maruk notou a sujeira do chão e chegou a repensar se o que o bardo Finnian Pagemore havia lhe contado sobre o bravo Lorran, o intrépido Mugluk e o santíssimo Tadhg, tinha algum fundo de verdade. Afinal, um bardo que se dizia filho de um dragão e não aparentava estar bêbado, não merecia muita confiança.
Tadhg e Roos se olharam, fitaram Mozuc, ainda indignado no canto da escada, mas já começando a dar longas risadas pela situação. Olharam para Lorran que olhava para Maruk como se ele fosse um pote de ouro no fim do arco-íris.
— É isso! É isso! Ajude Tadhg e Roos a criar algo que cure os meus colegas e você ganha uma vaga vitalícia na Companhia! — Disse Lorran, empolgadíssimo.
Maruk concordou e se junto a Tadhg, Roos e Ilifir que acabara de voltar da floresta com Bertoldo e uma sacola de pano cheia de ervas que atirou sobre o balcão.
Após uma tarde tentando decifrar o mal que acometia os enfermos da Companhia do Butim, Maruk, Tadhg e Roos chegaram a um veredito. Tadhg tomou a frente.
— Lorran, eis que o jardim das rosas de Xyntillan, o qual recebeu um fertilizante de Mozuc para acelerar seu crescimento, fica imediatamente colado na parede que dá para o basculante da minha cervejaria. Isso não seria um problema, no entanto, se, segundo Maruk, as rosas fossem crescendo sem que alguém revirasse o solo. Quando Toco resolveu cobrir seus cotocos imaginando que suas pernas também cresceriam, ele liberou parte do pólen dessas rosas, que, nesta etapa de crescimento, são tóxicas. Nós que não bebemos nesta manhã, estamos bem. Quem bebeu, está intoxicado.
— Meu deus, aqui só tem gente louca!
— Aha, quer dizer então que o Toco deixou todo mundo doente, certo? — Riu Mozuc, cortando o assunto como um machado.
— Nada disso, Mozuc, as rosas não deveriam, jamais, estar naquela parede. Ou talvez a cervejaria não devesse estar naquele quarto, ou, muito provavelmente, Toco não deveria ter perdido suas pernas ou viver assombrado com a tentativa de recuperá-las. Isso não importa mais. O que importa é que o efeito é temporário e não é letal. Wathgar, por exemplo, já esta recuperando a cor, o que é bom. Eles precisam de descanso absoluto e amanhã, quando voltarmos de Xyntillan, eles estarão novos e dispostos. — Disse Tadhg, tentando apaziguar os ânimos.
Lorran assentiu. Ele confiava em Tadhg que já tinha curado ferimentos dos membros da Companhia mais vezes do que seus dedos poderiam contar.
Mozuc também lhe dava crédito, e nutria especial apreço aos druídas, pois ouvira lendas sobre o Gnomo Lalwen, que tombou em Xyntillan, mas tinha um grande quadro ao lado de Watalior, o primeiro mago vitimado da Companhia, lutando contra dragões, bem na parede principal da Donzela. No lado oposto ainda havia uma placa de madeira esculpida em baixo relevo com os dizeres “Aqui jaz Watford, o algoz das vinhas fantasmas”.
Baratas e Succubus
Depois que os cuidados foram organizados Tadhg, Mozuc, Roos e Ilifir, acompanhados de Maruk, se arrumaram para seguir para Xyntillan.
Mozuc organizou uma pequena tropa de soldados leves, pesados e arqueiros e, estando prontos, resolveram partir.
Então, saindo da neblina, como um ser etéreo que ganha corpo, veio Tal’Shaar, a elfa negra que confundia os olhos.
A viagem até Xyntillan foi tranquila. Maruk recolheu uma cobra verde do meio da estrada e eles chegaram ao castelo com um objetivo diferente: acessar as bibliotecas do segundo andar, acima da região do Jardim das Rosas, evitando encontrar a temida Besta de Xyntillan.
Assim que entraram no pátio principal Maruk teve um vislumbre do que o castelo lhe reservava: uma noiva fantasma, muito emagrecida e aparentemente vítima de uma existência sofrida e despropositada. Era Beatrice Malevól.
— E esses trajes de noiva, qual o motivo de usá-los? — Mozuc perguntou com seu carisma de carrasco.
— Eu prometi que usarei o meu vestido de noiva para toda a eternidade, ou até que alguém me traga a cabeça do meu primo Bartolomeu.
— E qual a recompensa por isso? — Mozuc indagou.
— Minha gratidão eterna — respondeu Beatrice, fechando a cara e cerrando os punhos, já tremendo o corpo.
— Certo, então. Soldados, preparem-se! Bartolomeu Malevól eu o convoco! — Mozuc gritou, determinado e viu uma bola de feno rolar ao fundo do pátio vazio do castelo e o vento assoviar, triste, ou zombeteiro.
— E o que houve para ter tanta raiva de Bartolomeu? — questionou Tal’Shaar, a de poucas palavras.
— Ele me abandonou no altar.
Maruk só observava até que sentiu algo se enredando no seu calcanhar. Lembrou da história triste de Watford, que Finnian lhe contara, sobre as tais vinhas assassinas, e quase se assustou. Mas viu que a cobra verde que ele havia resgatado antes de ser atropelada pelas rodas da carroça da Companhia, agora o seguia. Maruk era um verdadeiro domador de cobras, diria Mozuc, aquele de cabeça suja e língua afiada como uma adaga de prata que feria até os espíritos.
Em algum momento Tadhg notou que Beatrice estava perdendo o controle com Mozuc, que a tratava como se fosse apenas mais uma fantasma inofensiva, e precisou intervir. Com suas palavras, conseguiu apaziguar a situação e assim subiram pelo jardim das rosas.
Avançaram por uma passagem secreta que levava a um bar e depois a um berçario, revelando uma arquitetura tão ilógica quanto seus habitantes originais. Mas se tratavam de locais que já haviam mapeado, então a surpresa apenas os reencontrava em menor intensidade. As tais bibliotecas ficavam, segundo as anotações daqueles exploradores, no segundo andar daquela região nordeste de Xyntillan.
Tadhg tomou a frente, seguido por Maruk, Tal’Shaar, Mozuc, Ilifir e Roos. Em sua retaguarda alguns soldados acompanhavam, a passos lentos.
Então, quando dobraram em um corredor, pois Mozuc insistiu para retornarem até a sala dos corcundas com a esperança de encontrar mais duas varinhas mágicas que atiravam raios, aquela que Azimandor perdeu durante uma noite de bebedeira, o grupo se deparou, iluminado pela lanterna de Tadhg e uma ou outra tocha, com uma criatura Kafkiana: a mescla imperfeita de uma barata com o que restou de um homem. Ela estava de pé, parada e acenou para o grupo.
— Criatura medonha, você nos entende? — Mozuc perguntou, com a delicadeza daquele que arranca cabeças com machadadas, e a criatura balançou sua cabeça insetóide indicando que sim.
— Então o negócio é o seguinte. A gente vai passar e se tu não nos fizer nada, a gente também não te faz mal — Alertou Mozuc, o faccionado do Butim.
A criatura demonstrou inteligência e iniciou uma tentativa de comunicação. Tadhg retirou um papel e um pote de tinta que ele utiliza para manter seus registros, como monge copista.
— Se você conseguir colocar a ponta da pata, talvez consiga nos escrever alguma coisa.
“Após uma noite de sonhos intranquilos, eu Gregor S. Malevól, despertei transformado em um inseto horrível”, ele escreveu. “Por favor, devolvam minha forma”.
- O primeiro possuía uma frase escrita: “Seno Lamron Eht Era Ew”.
- O segundo tinha um colar de pérolas.
- O terceiro apresentava uma imagem borrada.
- O quarto tinha uma figura escura no reflexo, carregando uma mulher ensanguentada.
- O quinto estava infestado de aranhas em uma sala.
- O sexto estava expelindo um gás com um cheiro adocicado, que fez com que Maruk alertasse os colegas e pedisse pressa para sair da sala.
- O sétimo apresentou uma visão assombrosa para Tadhg: ele viu seus companheiros ensanguentados e sem as cabeças e foi compelido a correr para fora daquela sala por uma porta adjacente que Gregor já seguia.
- O oitavo espelho não tinha ninguém.
- O nono tinha o seguinte texto: “Moor Rorrim says: Nuf Era Srood Gnivlover”.
- O décimo mostrava um banquete com fantasmas.
- O décimo primeiro mostrava um Mozuc de alguma realidade paralela, totalmente diferente e que apontava, horrorizado e gritando para o nosso Mozuc.
- E no décimo segundo espelho uma sina: a companhia do butim aparecia como cadáveres carregando uma placa escrita “noos”.
Tal’Shaar começou a balbuciar termos arcanos e em seguida nos alertou que a transformação de Gregor não se tratava de uma ilusão.
Tadhg tentava entender mais sobre a criatura, com sua curiosidade habitual, e descobriu que ele se encontrava com o mordomo James uma vez por dia e que assim, eles poderiam tentar reencontrá-lo em incursões futuras.
Quando o grupo se despedia de Gregor, ele indicou se poderia seguir conosco.
— Olha só, a gente tá aqui pelo butim, viemos atrás de tesouros. Se isso não for um problema pra você, pode vir com a gente, caso contrário sai fora e não enche meu saco! — Avisou Mozuc e a criatura deu pulinhos de alegria.
Antes do grupo prosseguir, Mozuc entrou em um quarto. Um lugar em que Tadhg também já estivera. Uma sala com dispositivos estranhos, com engrenagens, peças esquisitas e onde, anteriormente, a Companhia do Butim surrupiou aquela vara de raios famosa por gerar intrigas e prisões. Haviam cinco corcundas na sala e Tadhg começou a distraí-los para Mozuc procurar novas varinhas, que nunca existiram. Sua memória o traiu. Mas Tadhg inventou uma história sobre ter visto a varinha numa sala ao sudeste, tomada por pequenas aranhas, que deixou os corcundas confusos.
Tadhg reveleou para Gregor que eles buscavam bibliotecas arcanas devido ao interesse crescente de TalShaar por tomos e grimórios. O baratão ficou muito empolgado e passou conduzir o grupo por corredores até que se depararam com dois esqueletos extremamente lentificados. O simbolo de Bellenus, o deus Sol, foi erguido por Tadhg, e a luz afugentou as duas criaturas imediatamente.
O grupo avançou pouco por regiões inexploradas de Xyntillan, é verdade. Os tesouros foram inexistentes, mas as informações foram valiosas: assim que subiram pela escada, decidiram ir sem os soldados. Gregor indicou que seria necessário fazer silêncio. Tadhg bateu as palmas das mãos e tudo ao seu redor ficou quieto, quase mudo. O clérigo, de pronto, entendeu o motivo do cuidado: Gregor balançava suas patas sinalizando contra uma porta majestosa. A barata indicava um “não entrem aqui”.
A Companhia, ou uma fração dela, seguiu e passou por uma engenhosa porta giratória, cheio de espelhos que dava acesso para uma sala tomada por mais espelhos.
Tadhg, Maruk, Roos e Tal’Shaar começaram a investigar os espelhos e a elfa negra identifica 12 deles, emanando uma aura mágica.
Assim que saíram da sala, Tadhg indagou: — Gregor, aquela porta majestosa dá para os aposentos da Besta de Xyntillan, não é? — Na medida que a barata confirmou convicta.
— Como você deduziu isso, Tadhg? — Indagou Mozuc, surpreso.
— Aprendi a investigar com Finnian, isso é algo que ele realmente faz bem. Mas estamos próximos do Jardim das Rosas, que já sabemos ser domínio da Besta. Além disso, todos por aqui parecem temer esta criatura e o reflexo que vi no quarto espelho me pareceu ser a figura da besta carregando uma mulher.
Gregor foi conduzindo o grupo por corredores desinteressantes, mas bastante animado. Tadgh comentou com ele que talvez as bibliotecas pudessem ter algum livro com algum feitiço para reverter sua forma insetóide e isso pareceu ter feito sentido e dado uma motivação extra ao Malevól.
O grupo abriu uma porta e se deparou com uma grande sala, que se alarga, possui duas portas no lado esquerdo e é bem iluminada por janelas quebradas que recebem a luz da lua na parede norte. O cheiro, no entanto, lembrou o grupo do salão da Donzela do Butim, em seu estado deplorável e pouco habitual, pois fedia a fezes de pássaros e, mesmo Toco não sendo um pássaro, o cheiro era similar.
Ainda da porta o grupo percebeu grandes ninhos de pássaros com criaturas que pareciam meio mulheres, meio águias. Eram 6 bestas que Tadhg identificou o olhar do mal genuíno e decidiu fechar a porta, pois não haveria condições, nem tempo, de avançar por ali.
Então, da escuridão do corredor, bem de trás do grupo, surgiu uma figura tão bela quanto perigosa. De curvas convidativas, roupa de couro justa, com boa parte da pele desnuda, chifres negros na cabeça e pequenas asas de morcego, se aproxima com um caminhar ritmado e sinuoso como uma serpente.
— Que bela surpresa! Nunca vi um druida tão bonito. Será que você não quer ir comigo para a minha alcova, no alto da torre do lago? — Indagou a recém chegada.
— E por acaso quem é você? Você é mais uma Malevól? — Questionou Mozuc, já preparando o machado.
Maruk tentava resistir aos encantos de Serpentina, mas ficava cada vez mais claro que ele estava bastante interessado em uma noite de prazeres com aquela criatura.

— Sou Serpentina Malevól, a doce — respondeu a mulher olhando Mozuc com desdém e, então, Mozuc desferiu um golpe que passou perto do pescoço da mulher.
Neste momento ela invocou um servo das sombras, um assassino, como Mozuc, mas que saía do breu. Roos e Ilifir entraram em combate com golpes e flechas contra a criatura enquanto Tadhg e Mozuc tentavam derrubar Serpentina, que foi atacada pelas costas pelo seu próprio parente, Gregor, mostrando que ser um Malevól não indica muito coisa além de maldição, intrigas e sofrimento eterno.
Caída e ferida, Serpentina se rende e Mozuc sentencia: — Vá embora, mas você nos deve a sua vida.
E assim a Companhia do Butim percebeu que era hora de voltar para a Donzela do Butim e verificar o estado dos seus outros membros. Mas Serpentina deixou claro que pode ser encontrada na Torre do Lago e que conhece o paradeiro da espada de Medar Malevól, o que desperta o interesse da Companhia e talvez desperte, também, a sua falência.






















