Diário de Xyntillan — Nona sessão
Um bom dia para um do nosso ofício começa com uma estrada vazia e termina com os bolsos cheios. O início da nossa jornada, pelo menos, foi promissor. Partimos de Tours-En-Savoy — eu, Tadhg e Watford — com o caminho seguro e sem encontros indesejados. A sorte, contudo, é uma moeda que vira rápido nestas terras.
No meio da floresta, cruzamos novamente com aquele elfo rabugento que já havíamos visto. Desta vez, ele se apresentou como Ilfir, um ranger. Tadhg, com seu jeito de falar que parece acalmar até as feras, conseguiu convencê-lo a se juntar a nós. Desconfio de estranhos, especialmente os que não sorriem, mas a informação que ele nos deu valia o risco. Anotei mentalmente seus rumores: uma família de Dragões Brancos nas montanhas a leste, lobos perto da estrada, uma manada de caribus no vale, e, o mais interessante, uma madeira rara e valiosa ao norte do vilarejo que não conseguimos salvar. Ele também confirmou que as pequenas criaturas com quem dividimos nossa comida eram Goblins Caudados. Conhecimento é uma ferramenta, e Ilfir nos deu uma caixa cheia delas.
Em Xyntillan, a cautela era nossa armadura. Mesmo com a força dos homens contratados, este lugar nos ensinou a não confiar na sorte. Entramos pela passagem privativa da família, o local das gárgulas agora silenciadas. Adentrando além do salão principal, encontramos uma estátua bizarra, uma fusão de felino e águia, e mais sete retratos da amaldiçoada família Malevól. Sete novos rostos mortos para adicionar à nossa lista: Filomena, Girolame “o Bobo”, Aristide “o Patrício”, Gilbert “o Caçador”, Mortagu “o Machado”, Marcel “o Desnutrido” e um quadro vandalizado, cuja identidade foi apagada pela fúria de alguém.
Foi então que um deles decidiu sair da moldura, por assim dizer. Dos andares superiores, surgiu um homem que se apresentou como Gérome Malevól. Um patife, se é que já vi um. Suas roupas eram fajutas, suas bochechas vermelhas e seus dentes amarelos contrastavam com a serra suja de sangue que ele carregava. Tentei uma abordagem mais… sutil. Usei nossa linguagem secreta, a fala dos ladrões, para sondá-lo. Ele era um dos nossos, mas não era confiável.
Watford, com sua desconfiança direta, não gostou dele. Começou a questioná-lo, e Gérome se esquivou como uma enguia. Quando Watford exigiu que ele se entregasse, o patife fez o que qualquer ladrão faria: fugiu. Watford o perseguiu escada acima, mas recuou com sabedoria. Perseguir um ladrão em seu próprio território, para um lugar desconhecido e provavelmente cheio de armadilhas, é um convite para a morte. Deixamo-lo ir. Viver para roubar outro dia é o primeiro artigo do nosso código.
Continuamos a exploração e encontramos uma sala com um butim promissor. O trabalho parecia ter valido a pena. Mas Xyntillan sempre cobra seu preço, e geralmente na saída. Quando deixávamos a sala, as próprias paredes ganharam vida. Vinhas grossas e espinhentas, as guardiãs do castelo, irromperam das frestas e nos atacaram.
Foi um caos de garras verdes e laços mortais. Antes que pudéssemos reagir de forma eficaz, as vinhas encontraram seu alvo principal. Elas se enrolaram no pescoço de Watford, nosso guerreiro pragmático, e o ergueram do chão. Ele lutou, mas a força da planta era sobrenatural. Vimos, impotentes, enquanto ele era estrangulado até a morte, junto com outros três de nossos melhores soldados. A fúria tomou conta de nós, e cortamos e rasgamos as vinhas amaldiçoadas até que se tornassem apenas pedaços inertes no chão.
A vitória teve o gosto amargo de cinzas. Impactados, com o corpo de um dos nossos nos ombros, fugimos do castelo como pudemos. A lição foi brutal: em Xyntillan, o tesouro é sempre pago com sangue.






















