Três anões, dois presentes, uma escada e um meio-orc

Diário de Xyntillan — Vigésima quarta sessão

Dia 12 de Revi

Escrito por: Taobragonem Barbagrossa (Brag, o Doente) Local: Mesa de canto da Donzela do Butim (com um caneco de hidromel ruim para acalmar os pulmões)

Mais um dia, mais um relatório que aquele almofadinha do Wathgar deveria estar escrevendo se tivesse a decência de aparecer na hora da partida. “O Honrado”, dizem eles. Eu digo que ele é honrado demais para sujar as botas enquanto eu fico aqui, tossindo poeira de calcário e comandando quarenta e seis homens que mal sabem segurar uma lança sem se cutucarem.

Saímos com o céu nublado. Pelo menos o sol não estava queimando meus olhos, o que já é um luxo. Estávamos em peso: eu, os novos rapazes do clã — Brakka, que fala menos que uma pedra, e Gromel, que troca o martelo por rezas — e o tal Culam, o Cão. Esse meio-orc tem mais energia que juízo, o que, neste castelo, é uma sentença de morte assinada e carimbada. Roos e Ilifir também se juntaram a nós.

A viagem foi um tédio abençoado, sem emboscadas na estrada. Entramos no castelo pela porta da frente, mantendo a formação que eu ordenei. Eu e Gromel na vanguarda com os escudos pesados. Se algo fosse nos morder, que mordesse aço anão primeiro.

O incidente na galeria e o orc pulguento

Tudo ia bem até a Galeria dos Retratos. Cruzamos com um punhado de senhores desmortos — carcaças de nobres que não sabem a hora de deitar no túmulo. Eu ia passar direto, ignorando o fedor de mofo, mas o Culam resolveu “mostrar serviço”. O idiota tentou intimidar os mortos. Intimidar! Você não assusta quem já está no inferno, rapaz! Só conseguiu deixar os defuntos furiosos. Tivemos que gastar fôlego e lâmina para limpar o corredor. Minhas costas ainda doem do esforço.

Chegamos à Sala do Trono e apertamos aquele botão maldito no braço da cadeira. Assim que a passagem pro subsolo abriu, Culam pulou lá dentro como se fosse um poço de moedas de ouro. Sorte de bêbado ou de orc, ele caiu em pé.

Cinco minutos depois, o sujeito volta lá de baixo usando uma capa pomposa e carregando outra, parte da vestimenta de um bobo-da-corte, se coçando como se tivesse caído num formigueiro de fogo. O imbecil ainda teve a audácia de fazer uma reverência e oferecer uma roupa de bobo-da-corte pro Brakka. Brakka quase o partiu ao meio com o olhar. Eu não disse nada, só esperava que as pulgas daquela capa fossem mágicas e fechassem a boca dele por um tempo.

Lesmas no teto e o sangue no chão

Deixamos o subsolo para lá. Nosso foco era a sacada leste, o tal atalho que pode salvar quem ainda está preso naquela torre maldita. Achamos a sala que parecia dar acesso à parede externa, mas Malévol não entrega nada de graça.

Lesmas ácidas. No teto. Malditas coisas gosmentas.

Eu reagi rápido, joguei aquele chakram mágico que recuperei na torre, mas os outros dois barbudos — Brakka e Gromel, que, espero, passem a carregar algo arremessável a partir de agora — ficaram lá, plantados como estátuas, só olhando a gosma cair. As lesmas despencaram em cima dos nossos soldados. Foi um caos. Não dava para bater nas coisas sem cortar a cabeça dos nossos próprios homens. Perdemos três soldados ali. Três homens bons dissolvidos por ácido de bicho preguiçoso. Vencemos, mas o cheiro de carne queimada por ácido me deu um acesso de tosse que quase me fez pôr os pulmões para fora. 

No fundo da sala, o Culam cismou com uns dados que estavam rolando sozinhos numa mesa. O Cão queria atacar os dados! Tive que rosnar para ele entender: em Xyntillan, se algo está quieto no canto dele, você não cutuca com vara curta. O orc precisa aprender que nem tudo o que se mexe é um inimigo, e nem tudo o que parece tesouro vale o risco de perder um dedo. 

Todos aprendendo lições com Brag hoje. Bah! Que aproveitem mesmo enquanto estou vivo, antes que as minas terminem de cobrar seu preço.

E no fim, a sala era um beco sem saída. Não havia porta para a sacada. Tivemos que dar meia-volta e retornar ao corredor principal.

Vinte e quatro incursões. Três mortos hoje, até agora. Nenhuma escada de corda instalada ainda. A torre do lago continua lá, rindo da nossa cara, com Tadhg apodrecendo lá dentro. Se o Wathgar aparecer amanhã com aquele sorriso brilhante, eu juro pelos meus ancestrais que enfio aquela capa de bobo-da-corte goela abaixo dele. Com o Brakka nela e tudo.

Status da Tropa: 3 homens a menos. Um bobo-da-corte a mais.

Status de Brag: Liderando a tropa (por falta de opção).

O quarto do defunto e o olfato do cão

Saímos do corredor e entramos em um aposento que, em outros tempos, deve ter pertencido a algum figurão. Cortinas de cetim, uma lareira de pedra, um guarda-roupas entalhado e uma penteadeira atrás de um biombo… o tipo de lugar onde a gente espera encontrar um conde, mas só achamos poeira e o cheiro de morte. No guarda-roupas, fizemos um butim de respeito: roupas velhas, mas de um luxo que vai render boas moedas na cidade. Pegamos até um chicote de couro que estava no biombo; vai ficar bonito pendurado na Donzela do Butim, pra lembrar que a vida de aventureiro é só chicotada e pouca glória.

Gromel, o paladino, ficou lá com aquela cara de quem está ouvindo os anjos e disse que não sentia mal nenhum. Mas o Culam… ah, o nariz de meio-orc não engana. O bicho sentiu o fedor de carniça. Ele desenrolou um tapete no meio do quarto e, batata: um cadáver apodrecido, com a boca cheia de dentes de cristal. Pelo menos alguém ali tinha higiene bucal de luxo, mesmo estando morto.

O caixão embaixo do caixão

No centro do quarto, havia um caixão. Como o Gromel disse que não havia malícia ali, abrimos sem cerimônia. Vazio. Só terra seca e velha. Mas o Culam estava elétrico. Ele levantou o caixão inteiro — o sujeito tem força, preciso admitir — e revelou um recorte de pedra diferente no chão.

Eu me arrastei até lá, tossindo, para dar meu veredito. Pedra é comigo. Era um tampo móvel. Quando abrimos, o cenário mudou. Tinha outro caixão escondido ali embaixo. Dessa vez, o Gromel sentiu o mal — dava pra ver pela barba eriçada do anão. A aura era pesada, como uma marreta no peito. Como o dia já estava acabando e eu não queria enfrentar um vampiro ou sei lá o que com os pulmões chiando, usei o resto das minhas águas bentas. Armamos uma cilada santa em cima do tampo e fechamos tudo. Se a coisa tentar sair dali, vai ter uma surpresa sagrada e bem molhada.

A vitória e o presente do orc

Finalmente, o objetivo do dia. Culam abriu uma porta ao sul e, pelos deuses, a brisa bateu no rosto. Era a sacada! O meio-orc, sem medo de altura, saltou para o parapeito. Peguei a escada de corda que trouxemos lá de Tours — uma corda de qualidade, encomendada sob medida como as que usamos nas minas profundas — e amarramos firme no parapeito. Pelo menos agora temos um jeito de entrar naquele castelo sem ter que pedir licença para todos os fantasmas do salão principal.

Antes de partirmos, ainda fomos dar uma olhada na lareira. Reparei num mecanismo na estátua que fica no topo dela, mas pedra exige tempo e paciência, coisas que eu não tinha mais naquele momento. Enquanto eu e os outros anões analisávamos a cantaria da lareira, ouvi um barulho de madeira estraçalhada. O Culam tinha decidido transformar a penteadeira atrás do biombo em lenha.

Entre os destroços, o Cão achou um colar. Ele se aproximou de mim com aquela mesma mesura exagerada e ridícula de quando ofereceu a roupa de bobo ao Brakka. Com um sorriso de quem quer ser aceito no clã, ele me estendeu a joia. “Para o chefe”, ou algo assim, não ouço muito bem daquele ouvido. Guardei o colar. O garoto é estranho e impulsivo, mas tem um coração que não cabe no peito — ou talvez só queira garantir que eu não o deixe para trás na próxima vez que as lesmas caírem.

Voltamos para a cidade antes que o castelo resolvesse nos cobrar o aluguel com sangue. A missão foi cumprida, mesmo que o custo tenha sido alto para a infantaria. Agora, é beber para esquecer o gosto de ácido e planejar o que fazer com aquele segundo caixão.

O retorno e os homens-lagarto

Eu achei que o dia tinha acabado quando descemos por aquela escada de corda. Achei que Malévol tinha se cansado de tentar nos matar por uma tarde. Doce ilusão de um anão ranzinza.

No caminho de volta, o destino colocou um grupo de homens-lagarto na nossa frente. Eu já estava com os pulmões pegando fogo, o mau humor no limite e uma vontade desesperada de trocar o cheiro de mofo do castelo pelo cheiro de cevada da Donzela. Não tive paciência para táticas, cerco ou diplomacia. Gritei um palavrão que faria minha bisavó revirar na tumba e entrei em carga. O resto do grupo, contagiado pela minha fúria (ou talvez apenas querendo acabar com aquilo logo), veio logo atrás.

A coisa quase deu errado por minha culpa. Os arqueiros e besteiros da tropa de apoio, querendo ajudar, soltaram uma saraivada de flechas bem na hora que chegamos ao combate corporal. Senti o vento das flechas zunindo nos meus ouvidos. Mas aí, algo estranho aconteceu. O colar que o Culam tinha me dado — aquela quinquilharia que achei que era só um enfeite de vaidade do orc — começou a vibrar no meu pescoço. Uma vibração quente, um formigamento no peito. Eu via as flechas vindo na minha direção e, num milagre que nenhum deus explicaria melhor que a magia, elas simplesmente desviavam de mim no último segundo, como se o ar tivesse se tornado sólido.

Ao meu lado, o Brakka também teve sua dose de sorte sobrenatural. Um lagarto enorme desferiu um golpe de maça que ia abrir o crânio do bárbaro como se fosse um melão. Mas a tal capa de bobo-da-corte que ele vestia — a mesma que eu zombei — estufou de repente, como se um sopro de ar invisível o empurrasse para o lado. A maça passou a dois dedos da têmpora dele. No fim, os homens-lagarto viraram picadinho e nós saímos inteiros.

O veredito de Azimandor

De volta à Donzela do Butim, o velho Azimandor resolveu aparecer, milagrosamente sóbrio. Ele olhou para as nossas “aquisições” com aqueles olhos de quem vê o que nós, mortais comuns, não vemos.

Aquele trapo que o Brakka estava usando? Uma Capa de Proteção. O colar que o Culam tirou dos destroços da penteadeira? Um Colar de Deflexão. Magia pura, da boa. O moleque orc tem mãos de ouro para achar tesouro onde eu só via lixo.

Já o chicote… bom, Azimandor disse que a única “magia” ali era a das memórias de quem o usou. Basicamente, um pedaço de couro velho que não serve nem para espantar mosca de forma mágica. Vai ficar na parede da hospedaria mesmo, como troféu de uma vitória suada.

Temos um novo acesso. Temos itens que podem nos manter vivos. E, acima de tudo, eu sobrevivi a mais um dia sendo comandado pela minha própria impaciência. Agora, que tragam a cerveja. E que alguém avise ao Wathgar que, se ele sumir na 25ª incursão, eu vou usar o colar de deflexão para refletir os meus chutes diretamente para o traseiro “honrado” dele.

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