Watalior, o expulso

Humano mago

As páginas do meu diário são o único lugar onde não sou “o Expulso”. Aqui, sou apenas eu, Watalior. Esta runa em minha mão, no entanto, conta outra história. Ela arde com uma luz pálida sempre que chamo pela Arte, um farol para que todos vejam o pária. Às vezes, sob a luz das estrelas numa estrada poeirenta, eu a observo brilhar e pondero o caminho que me trouxe até aqui e o destino que esta marca insiste em traçar para mim.

Eu não nasci em meio a colunas de mármore. Meu berço foi o barro, filho de gente simples, habituada ao trabalho braçal e à fome, cujo único contato com a magia era o medo herdado de tempos sombrios. Mas em mim, a Arte era uma faísca inata, um talento que me isolava. A esperança surgiu em histórias sobre a Academia Arcana de Glavensor, um paraíso onde eu não seria temido, mas compreendido. Cada momento de minha juventude foi uma batalha para domar essa habilidade selvagem, sonhando com os portões daquele lugar. Ser aceito foi como nascer de novo e, ao cruzar seus umbrais, jurei honrar aquele santuário de conhecimento.

Meu progresso foi meteórico. Enquanto outros se esforçavam, eu sentia o fluxo da Arte como se fosse meu próprio sangue, e os professores me aclamavam como um prodígio. Foi então que conheci Arcanil Vosthern, meu mestre e meu algoz. Um homem forjado na tradição, que via a magia não como uma floresta a ser explorada, mas como um monstro a ser enjaulado. Ele reconhecia meu poder, mas temia o meu ímpeto.

A sede de conhecimento é um vício traiçoeiro. As lições da Academia, antes vastas, começaram a parecer limitadas, contidas. Comecei a me perguntar sobre a magia que eles proibiam, as práticas que chamavam de perigosas. Seriam mesmo perigosas, ou apenas… inconvenientes para a ordem que tanto se esforçavam para manter? Passei a me esgueirar pelas seções proibidas, descobrindo tomos sobre uma magia mais antiga e crua — a verdadeira essência da Arte, livre das correntes da civilidade.

Vosthern me encontrou em meio a um círculo de runas crepitantes, conjurando um poder que a Academia havia banido há séculos. A fúria em seus olhos não era a de um professor decepcionado, mas a de um guardião que vê seu maior medo se materializar. Ele não viu um estudante buscando conhecimento; viu um tolo arrogante brincando com as forças que outrora quase destruíram o mundo. A discussão que se seguiu foi o verdadeiro fim. Acusei-o de estagnação, de preferir a segurança da ignorância ao risco do progresso. Ele me acusou de arrogância, de trilhar o mesmo caminho sombrio que levou tiranos a conspurcarem o nome da magia.

Meu julgamento foi uma mera formalidade. Fui acusado de insubordinação e de ameaçar a delicada paz que os magos tanto lutaram para construir. As regras da Academia eram inflexíveis: para tal infração, só havia uma sentença. Fui expulso. Antes de me lançarem ao mundo, Vosthern realizou o ritual final, marcando minha pele com a runa do Expulso, um traço que ardeu como aço em brasa, deixando uma cicatriz que dói menos na carne do que na alma.

Desde aquele dia, a estrada tem sido meu lar. Sou um mago errante, um mercenário da Arte, vendendo meus talentos para quem paga mais. O cinismo se tornou uma armadura confortável, pois aprendi que a maioria das pessoas ainda carrega o antigo medo da magia que não compreende. Minha runa brilhante atrai tanto clientes desesperados quanto olhares de desconfiança. Aprendi que a lealdade é uma moeda rara e que, nos ermos, as únicas garantias são o peso do ouro na bolsa e a resiliência do próprio corpo.

A chama que me levou às seções proibidas, porém, não se apagou. Pelo contrário, ela arde mais forte, agora alimentada pelo vento da liberdade. O mundo se tornou minha biblioteca, e seus segredos mais sombrios são os volumes que anseio por ler. Continuo minha busca pelo conhecimento proibido, não por rebeldia, mas por convicção. E talvez, no fim deste caminho, eu não encontre apenas poder, mas um tipo diferente de justiça.

Essa busca incessante, e a necessidade de encher a bolsa, me trouxeram à Encruzilhada de Savoy. Aqui, junto a outros párias e oportunistas que chamo de “colegas”, ouço sussurros sobre o Castelo de Xyntillan. Falam em tesouros, sim, mas também em segredos arcanos que fariam meu antigo mestre tremer. É um risco, como sempre, mas talvez entre as ruínas desse castelo amaldiçoado, eu encontre mais do que ouro. Talvez eu encontre um novo fragmento da verdade. A jornada recomeça.

“Eu pego o item da múmia”

Watalior, o Mago que virou pó.

DÚVIDAS?

Nós também temos. Principalmente se nossos personagens voltarão vivos da próxima incursão…

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